A Revolução de Junho

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Em uma inversão de papéis, Marcos Rojo carrega Lionel Messi após o segundo gol argentino contra a Nigéria, que classificou "la selección" para as oitavas de final da Copa do Mundo 2018.

São Petesburgo é o palco principal da Revolução de Outubro de 1917 quando os Bolcheviques, liderados por Vladimir Lenin invadiram o Palácio de Inverno, o que culminou na transferência de poder aos Sovietes e na ascensão do Partido Soviético ao comando na Rússia. 


A pouco mais de 10 km dali, em Junho de 2018, o Estádio de São Petesburgo testemunhou outra revolução. Outra tomada de poder. Com direito a líder dos trabalhadores jogadores sangrando e tudo mais. O caos absoluto havia se iniciado ainda em Nizhny-Novgorod, minutos depois da derrota para a Croácia. Informações atravessadas, telefones-sem-fio, sensacionalismo da imprensa local. Pavón bateu em Mascherano? Agüero disse que não se importa com o que Sampaoli fala? Clima de velório.


Entre mentiras e verdades o certo é que no dia seguinte a Nigéria venceu a Islândia e simplificou bastante a missão da Seleção Argentina, caso realmente quisessem ir a Kazan, no próximo sábado enfrentar a França pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 2018. Mascherano tomou a palavra e a prancheta. Chutaremos todos para o mesmo lado. Já que vencer a Nigéria pela quinta vez em 5 encontros em Copas e contar com uma leve ajuda da Croácia não era nada do outro mundo, o primeiro passo era fazer o mais simples possível, praticamente começar do zero. Um simplório 4-4-2, cinco titulares da Final de 2014, mais Banega ajudando na saída de bola e Di María.... bem.... não ajudando em nada. Li seu texto no Player’s Tribune, Fideo, maravilhoso. Mas precisa colocar essa emoção cada vez que você bate na bola, senão não adianta muito...


Laterais eram laterais, volantes eram volantes, atacantes eram atacantes. Se o melhor jogador do Mundo está do seu lado, basta apenas um pouco de consistência lá atrás para ser competitivo. Alejandro Sabella que o diga. Foram necessários 14 minutos. Banega percebeu um elétrico e participativo Lionel Messi em disparada, o lançamento encontrou o número 10 gravado em sua coxa esquerda, mais um toque com a ponta do pé esquerdo, para ajeitar a bola para o pé direito, o “ruim”, disparar cruzado no contrapé do goleiro nigeriano. É claro que só foi possível ver tudo isso em câmera lenta. Em velocidade normal jogador e bola parecem uma coisa só, um completa o outro, até o momento em que ele decide mandar ela para as redes. Messi é capaz de ler o código-fonte da Matrix do futebol. A nós, resta o replay.


Após um primeiro tempo sem sustos defensivos, lá estava o Messi, aquele que não vibra e que não se comunica com os companheiros, reunindo o time na entrada do gramado, tomando a palavra e gesticulando, possivelmente tentando planejar um segundo tempo em que se sabia que a seleção nigeriana não seria tão passiva. A calmaria durou 5 minutos. O técnico em campo, cujo principal erro foi não se substituir, não chegou a derrubar o nigeriano Balogun, mas as duas mãos em volta de sua cintura foram o suficiente para vender o pênalti inexistente. Moses bateu e guinou o barco em direção à tempestade.


Um time mais simples era obviamente capaz de competir em melhores condições, mas e a falta de repertório para furar retranca? Alternativas como as que eram necessárias só se desenvolvem com o tempo, que o deposto Sampaoli fez questão de desperdiçar. E agora? Foram 40 minutos de um tango que nem Gardel assinaria, com direito a VAR para aumentar a tensão, Armani salvando o chute de Ighalo, Higuaín mandando a classificação para a Lua em um lamentável chute de canhota (Não? Sério?), Sampaoli perguntando aos jogadores quem é que ele deveria colocar em campo. Agüero entrou, Tagliafico saiu e Rojo acabou se movendo da zaga para a lateral, o que lhe permitiu encontrar o cruzamento de Mercado e mandar de direita (esse sim pé ruim) para o fundo do gol, ao mesmo tempo em que Perisic encontrava o ângulo do goleiro-cineasta islandês e dava a contribuição que a Argentina precisava.


A partir dali, quem se certificou que o 2 a 1 seria realmente o placar final, foi ele. Ele que não tem raça, que é catalão, que não se importa. Atrasou o jogo, tomou amarelo, deu carrinho, fez o que foi possível para que a Nigéria não passasse mais do meio-campo. E não passou. Vibrou o gênio dentro do campo. Vibrou o gênio na arquibancada (um pouco entorpecido, é verdade). Vibrou o general ensangüentado. Vibrou o treinador solitário. Vibrou o argentino na arquibancada, em Plaza San Martín ou em casa com a família. Vibrou quem gosta de futebol. São mais 90 minutos do principal artista no palco mais nobre. Aproveitemos.


El otro Carlitos