Montanha Russa

GettyImages
GettyImages

"Every new beginning comes from some other beginning's end." - Semisonic - Closing Time


“Malditos sean los recuerdos dolorosos,
maldita la impotencia y la injusticia que vivimos
el volvernos a casa, cada uno por su lado
las finales sin jugar, el quedar en el camino”



Essa estrofe pertence a um poema escrito para um comercial da cerveja argentina Quilmes, veiculado durante a Copa de 2006 (link aqui). Nunca vi nada que pudesse traduzir melhor a sensação da eliminação em uma Copa do Mundo. Poder sentir isso hoje é, acreditem, um upgrade em relação ao que seria uma eliminação ainda na fase de grupos. Como 2002 infelizmente mostrou, seria ver a Copa passar tão rápido, que não daria tempo de se sentir parte dela.



A vitória contra a Nigéria permitiu que a Argentina entrasse de fato na Copa 2018 e disputasse um verdadeiro, um legítimo jogo de Copa do Mundo contra a França. E por “verdadeiro jogo de Copa do Mundo” leia-se uma volta em uma montanha-russa. O trocadilho com o país-sede em questão não foi intencional. Foi apenas fortuito. O que não teve absolutamente nada de fortuito foi o primeiro gol francês. Sabendo que Sampaoli (?) escalou o time argentino para atuar de forma reativa com a velocidade de Pavón e Di María pelas pontas, Didier Deschamps se certificou que seu time desse a bola para os argentinos e ela, França, fosse o time reativo e explorasse os contra-ataques. Os mais de 60% de posse de bola do time argentino durante o primeiro tempo foram todos contra sua própria vontade.



Com as linhas de defesa e meio-campo muito próximas uma da outra, o capitão de 98 tornou impossível que Messi exercesse a função de falso 9 que lhe fora incumbido, que consistia em iniciar o jogo pela ponta direita e se projetar em diagonal para receber a bola de frente para o gol, no buraco entre as linhas francesas. Como Guardiola ensinou. Mas não haviam buracos. A cada recuperação de bola que os Bleus conseguiam, Pogba se encarregava de fazer a transição com lançamentos precisos nas pontas para Mbappé e Griezmann. O time argentino não se mostrava preparado para ter a bola no pé. Banega errou o domínio, quase em posição de chutar a gol. Menos de 5 segundos depois o jovem de 19 anos do PSG já havia cruzado todo o campo em disparada até ser derrubado por Rojo em um pênalti desnecessário, uma vez que Mbappé tinha adiantado demais a bola em direção à linha de fundo.



Aos 13 minutos, Griezmann bateu o pênalti e embicou o carrinho argentino, que começou a montanha-russa lá em cima depois da classificação épica, para baixo. E rápido. Seria difícil conter os contra-ataques dos franceses, mais velozes, mais jovens, mais organizados, mais descansados. Os principais jogadores tinham sido poupados contra a Dinamarca. Tinham tanto sucesso com as suas linhas próximas que se distraíram. Aos 41, Di María teve o espaço necessário para saber qual é a sensação de disparar um canhão contra a Bastilha. O chute saiu com a mesma emoção com a que ele escreveu recentemente sobre sua vida. Finalmente. O carrinho voltava a apontar para cima.



E o carrinho continuou subindo e atingiu o cume seguinte quando, após uma bola levantada em cobrança de falta, Mercado desviou o chute de Messi e “vendeu” o goleiro Lloris que apenas pôde acompanhar, distante, a bola caminhando mansamente para a rede. Mas o ponto mais alto de um cume é também um ponto de inversão. Algúem já viu um time “sentir” o próprio gol? Pois o time argentino sentiu o próprio gol. Ainda tento entender qual o motivo. Talvez porque se viram tão perto de vencer mais uma etapa de uma missão impossível, que colocaram huevos além da conta. Banega e Mascherano foram amarelados e excluídos de uma eventual quartas-de-final menos de 5 minutos após o gol. Os nervos pareciam mais exaltados agora, com o carrinho lá em cima, do que quando estava lá em baixo.



Quando finalmente a Argentina teve a França onde queria, aberta para que funcionasse o falso 9 e os ataques pelas pontas, o time se perdeu, bateu além da conta e ofereceu seu próprio trunfo, as laterais, para a França atacar. Enzo Pérez e Mercado pareciam não saber quem deveria acompanhar o lateral-esquerdo Hernandez, cujo cruzamento atravessou toda a área Argentina (assim como no gol sofrido para a Islândia) e encontrou o outro lateral, Pavard. O chute foi de primeira. A analogia é óbvia, mas eu a farei assim mesmo. Cortou o ar como a lâmina de uma guilhotina. Desenhou o gol mais bonito de toda a Copa até aqui. E deu aos Argentinos um ar de Luís XVI. Parecia uma questão de tempo até que encontrassem seu destino final. Carrinho apontado para baixo. Noventa graus.



Se o time sentiu o próprio gol aos 3 minutos do segundo tempo, o que dizer do gol de Pavard aos 12? O momento era ruim, muito ruim. Seria importante tranqüilizar o time em no máximo uns 10 minutos e voltar para o jogo. Só que 10 minutos depois o placar já fora acrescido por dois gols de Mbappé, primeiro em jogada individual aproveitando um bate-e-rebate dentro da área, contestado apenas pela mão invisível de Mercado, e depois finalizando uma jogada coletiva, que incrivelmente o poste Giroud (que é como se diz “Higuaín” em francês) ajudou a construir. O bom de uma montanha-russa é que uma hora o carrinho embica pra cima de novo. E aconteceu a partir da última vez que Lionel Messi bateu na bola em uma Copa do Mundo. Cruzamento na cabeça de Agüero (por que cargas d’água ele entrou em campo com uma camisa rasgada?). 4 x 3. Verdadeiro jogo de Copa.



Carrinho pra cima? Não. Otamendi se encarregou de que fosse apenas a lenta aproximação do carrinho da montanha-russa a seu ponto de partida. Fim da linha. Ao chutar a bola em um jogador francês caído no chão e traduzir em um simples lance tudo de errado que há atualmente no futebol argentino, o inconseqüente zagueiro do Manchester City retirou 2 minutos do cronômetro e freou o carrinho. Quem quiser andar de montanha-russa de novo, que pegue a fila. Tempo estimado de espera: 4 anos (se conseguir se classificar sem o Messi, é claro).


Que um dia o futebol argentino possa encontrar novamente a última estrofe do poema da Quilmes.


"Benditos sean estos momentos que nos regalan el fútbol,
de poder cambiar nuestro destino
y sentir otra vez y frente al Mundo
lo glorioso
y lo groso
de ser Argentino"



El otro Carlitos