Náufrago argentino

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Ilhado. Sem o apoio de praticamente nenhum ser-humano vivo, Jorge Sampaoli deve primeiro reconstituir sua comissão técnica para depois buscar a redenção.


Em reunião na tarde de hoje com Claudio Tapia e Daniel Angelici, fantoches presidente e vice da AFA, no prédio de Ezeiza, Jorge Sampaoli foi mantido no cargo de técnico da Seleção Argentina de Futebol. Aparentemente. Nada na AFA é claro e cristalino. Fica pendente uma ratificação dos demais caciques da entidade que não estiveram na reunião, mas que por ego precisam dizer que concordam. Ou não.


A decisão tem um único caráter: financeiro. A AFA não tem um único centavo está disposta a arcar com a multa rescisória de pouco mais de 8 milhões de dólares pela quebra do vínculo que vai até o final do Mundial de 2022, no Catar. Em menor escala, as recusas em potencial de nomes como Diego Simeone, Maurício Pochettino e Marcelo Gallardo, que já manifestaram publicamente não ter interesse no cargo no momento, também contribuem para essa “decisão”.


Há, no entanto, uma cláusula no contrato que permite o rompimento unilateral por qualquer uma das partes, sem o pagamento de multa, a partir do término da Copa América de 2019, a ser disputada aqui no Brasil. É nela que os dirigentes pretendem se apoiar caso os resultados continuem muito aquém daquilo que Sampaoli mostrou na Universidad de Chile, Seleção Chilena e Sevilla, que o credenciaram para o cargo. Ainda restariam mais de três anos para a próxima Copa.


O desgaste e o isolamento do selecionador vão muito além das cenas onde ele comemorava os gols do time argentino absolutamente sozinho durante a Copa 2018. Três integrantes de sua comissão técnica rescindiram seus contratos e não irão participar do novo ciclo, incluindo seu “imediato” Sebastián Beccacece, que voltou a ser técnico do Defensa y Justicia, cargo que ocupava até o chamado da AFA no meio de 2017. Em sua coletiva de apresentação, Beccacece desviou de todas as perguntas relacionadas a seu ex-chefe e se limitou a dizer que explicou à ele, cara-a-cara, quais eram os motivos que o levaram a pular do barco que hoje se encontra no fundo do oceano.


Por sua vez, Sampaoli tem a plena convicção que pode, com o tempo que nunca teve, colocar em prática um projeto para renovar tanto as peças quanto o estilo de jogo da Seleção Argentina durante os próximos quatro anos. Sabendo que a AFA jamais pagaria a multa rescisória, a pauta principal da reunião parece nunca ter sido sobre a continuidade do técnico, mas sobre as condições de trabalho daqui para frente. Sampaoli pediu para ser o técnico da seleção Sub-20, que perdeu seu rumo desde que saiu das mãos de José Pekerman e Hugo Tocalli, no fim da década passada. Antes potência e maior vencedor do torneio, a Argentina passou a nem sequer se classificar para os mundiais da categoria. O projeto envolve levantar a seleção principal a partir das equipes de base e, para quem propõe um estilo de jogo não-ortodoxo e de difícil assimilação, faz todo o sentido.


O resgate à carreira do treinador começaria em 19 dias, quando a seleção Sub-20 disputa o torneio de L’Alcúdia na Espanha, contra seleções de menor expressão. Se a cúpula da AFA ratificar a decisão de Tapia e Angelici e aceitar o pedido, Sampaoli estará, em muito menos tempo do que se imaginava, de volta à beira do gramado, tentando sair da ilha onde se enfiou. Contra ele o fato de que a ilha é cercada de algo muito mais desafiador e traiçoeiro do que água: a desconfiança do povo argentino. Torcedores, dirigentes e, principalmente, jogadores.


El Otro Carlitos