É proibido sentir-se melhor

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O croata Modric e o francês Varane em treinamento do Real Madrid. As seleções finalistas da Copa 2018 não tiveram dificuldades em fazer sete gols em dois jogos contra a bagunçada albiceleste.


Somos todos latinos. E temos manias semelhantes. Em tempos de Copa do Mundo, as nossas manias mais latentes talvez sejam apontar o dedo para uma única pessoa após a eliminação e a medir uma seleção através de outra, procurando alguma lógica matemática onde o imponderável nunca se cansa de fazer uma visita. Tão errado quanto dizer que a eliminação da Argentina (do Brasil) é tudo culpa do Sampaoli (do Fernandinho) foi medir a Bélgica pelo susto que levou do Japão ou a Croácia a partir do jogo ruim contra a Dinamarca. Os jogos seguintes mostraram que essas seleções estão fazendo um Mundial muito melhor do que as suas respectivas performance nesses jogos específicos.


No caso da Seleção Argentina acontece justamente o contrário. Minutos depois da vitória da Croácia sobre a Inglaterra que definiu a seleção quadriculada como o parceiro de dança dos franceses no baile final, a manchete sempre bem-humorada do Diário Olé dizia: “Perdemos contra o Campeão”. Eu faria uma pequena correção: “Fomos atropelados pelo Campeão”. Não há mérito algum, para uma seleção de tamanho peso histórico, em ser categoricamente despachada do torneio após quatro jogos, sendo duas derrotas, um empate e a épica, porém solitária, vitória contra a Nigéria. Ainda que estas duas derrotas tenham acontecido, coincidentemente e nada mais, contra as duas seleções que entrarão em campo em Moscou no próximo domingo.


Futebolisticamente falando, o torcedor argentino está proibido de sentir-se melhor por descobrir, se é que já não tinha se dado conta, que França e Croácia são de fato duas grandes seleções. Amenizar o fracasso que foi a curta campanha na Rússia a partir disso é um erro gravíssimo. Não pode ser permitido nem por um segundo sequer. Nenhum tipo de atenuante ajuda o futebol argentino nesse momento. Por mais ínfimo que possa ser.


Não é demais especular que aquele time, que chegou às oitavas após conjurar uma alma baseado apenas na força de vontade de seus líderes, fosse incapaz de vencer qualquer uma das oito seleções que atingiram as quartas. Nem mesmo a limitada dona da casa. E não creio que eu esteja cometendo o erro mencionado no primeiro parágrafo. Estou medindo a Seleção Argentina por ela mesma. Por seus próprios (inúmeros) defeitos e sua desesperadora falta de padrão tático e organizacional.


Como bem disse Jorge Valdano, atacante Campeão do Mundo em 1986 no time de Maradona e colunista do jornal inglês The Guardian, huevos (brios, ou a famosa “raça”) ainda são mais valorizados do que o talento no lado ocidental do Rio da Prata. Talvez isso explique a titularidade de Mascherano nessa Copa e os zero minutos em campo de Lo Celso. Nada melhor para exemplificar. As conseqüências disso são dissecadas por Valdano no artigo What’s wrong with Argentina? We now value ‘balls’ more than talent, escrito logo após o baile croata. A soberba dentro e fora do campo e a super-valorização da raça desde as divisões de base são a raiz de um sério problema que deve ser atacado imediatamente. Não é permitido perder tempo com amenidades.


El Otro Carlitos