Brasil x Inglaterra na Copa do Mundo é mais clássico do que parece

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Os heróis de 2002, quem sai agachado na foto sempre decide


Na última vez que ganhamos a Copa do Mundo, o jogo mais difícil foi contra os ingleses.


Aquela geração maravilhosa dos comedores de fish and cheetos liderada pelo Bonitão David Beckham, que enfrentou o Brasil envergando a 7 e a faixa de capitão. Beckham, esse colírio da Capricho que deu certo.


Coincidência ou não, no tricampeonato em 1970, no México, os únicos que quase pararam o rolo opressor e compressor canarinho foram exatamente os ingleses - como todo mundo sabe, vencemos pelo placar mínimo. Num jogo que ainda teve, quiçá, a maior defesa de todos os tempos: protagonizada por Gordon Banks, numa cabeçada poderosa de Pelé. Se Gordon Banks tinha toda aquela agilidade, imagina se fosse o Magron Banks. Tudo bem, tudo bem, parei.


Quer dizer então que os ingleses sempre foram uma pedra no nosso sapato? Na verdade, podemos dizer que eles nos incomodaram bastante nos dois mundiais citados, em que o Brasil conseguiu vitórias magras, e no empate na primeira fase da Copa de 1958.


Porém, curiosamente, a Seleção Brasileira enfrentou a Inglaterra em 4 das 5 Copas em que se sagrou campeã e jamais perdeu um jogo sequer em mundiais, afinal, quando tá valendo tá valendo:


Brasil 0 x 0 Inglaterra, 1958 na Suécia
Brasil 3 x 1 Inglaterra, 1962 no Chile
Brasil 1 x 0 Inglaterra, 1970 no México
Brasil 2 x 1 Inglaterra, 2002 no Japão/Coreia


No tetracampeonato em 1994, é bem verdade que não enfrentamos a Inglaterra, mas, em compensação, um dos jogos mais difíceis foi exatamente nas oitavas de final contra a sua ex-colônia mais famosa, os donos da casa, os Estados Unidos, de maneira que, tecnicamente, podemos dizer que, indiretamente, eles foram responsáveis pelo sufoco que levamos no Stanford Stadium na Califórnia no dia 4 de julho de 1994 (faz Bebeto, faz Bebeto!).

Já em 2002, a Seleção chegava às quartas de final depois de quatro vitórias, 2 a 1 contra a Turquia (o jogo mais difícil até então), 4 a 0 na China, 5 a 2 na Costa Rica, fora os apavoro, e 2 a 0 contra a Bélgica nas oitavas. O time de Felipão já havia conquistado parcialmente o desconfiado torcedor brasileiro do início do mundial, porém era consenso que a Inglaterra de Beckham, Scholes, Cole e Owen era o primeiro adversário de verdade que enfrentaríamos.


Naquele ano, a Inglaterra começou bem a sua participação na Copa, batendo a Argentina, que acabaria sendo desclassificada ainda na primeira fase. Depois disso, dois empates contra a Suécia e a Nigéria lhe garantiram a classificação em segundo lugar no grupo. Ao chegar às oitavas, aplicou um 3 a 0 na Dinamarca, que vinha com 100% de aproveitamento e vitórias sobre França e Uruguai - o gigante parece que havia acordado. Boa parte dos especialistas (sempre eles) parecia acreditar que a surra na Dinamarca teve o efeito do rufar do tambor de Francis Drake, cuja lenda diz que, caso seja tocado quando a Inglaterra estiver em perigo, é capaz de unir todos os ingleses na defesa da pátria, liderados pelo próprio Corsário que voltará triunfalmente.


Naquela Copa nas terras dos antípodas, alguns jogos aconteciam em plena madrugada para nós aqui no Brasil, e não foi diferente nessas quartas de final. O primeiro tempo nervoso espantava o sono e ficou ainda pior quando o zagueiro Lúcio (único remanescente dos pentacampeões ainda em atividade) se atrapalhou cortando mal a bola lançada, entregando-a de bandeja para o camisa 10 inglês, Michael Owen, que cara a cara com o Marcos deu uma cavadinha na nossa alma e na nossa confiança para abrir o placar.
É justo nessas horas que o complexo de vira-lata late alto lá do fundo dos rincões inescrutáveis da construção psicológica da identidade brazuca. Nossos belos copos pela metade, que até um segundo antes estavam prestes a transbordar, ficaram meio vazios instantaneamente.


Antes de terminar o primeiro tempo, porém, o brasileiro bateu no peito com orgulho outra vez e agradeceu por ter Ronaldinho, que dibrou (sic), arrancou, deu um tapa com elevado nível de nojo e colocou Rivaldo na cara do gol. No lugar de bater com a perna direita, Rivaldo ajeitou o corpo e deu um tapa, tal qual uma jogada de sinuca, empatando o jogo.


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Ronaldinho, o grande protagonista do jogo em 2002


O que aconteceu depois todo mundo está careca de saber, mas careca só atrás, estilo Ronaldo Fenômeno, ostentando um belo corte cascão à guisa de topete.


Contudo, o que pouca gente se lembra foi o que aconteceu antes um pouco, em 1862, quando a polícia do Rio de Janeiro, comandada pelo tataravô do Capitão Nascimento, prendeu e sentou o cacete num bando de baderneiros marinheiros ingleses (e outros brasileiros) que saíram na porrada por causa de bebida e mulher - tempos mudam, as pessoas permanecem as mesmas.
Acontece que o Embaixador britânico, William Dougal Christie, ficou pistola e exigiu que o Brasil abaixasse as calças para eles e inclusive fez ameaças ao próprio Imperador Dom Pedro II.


Tudo bem que os ingleses tinham a maior pica mundial naqueles tempos, mas tudo tem limite! Esse filha da mãe desse embaixador estava pensando que era quem, afinal? O vagabundo queria atacar do malucão e usar o nosso nome. “Sei nem quem é, mano!. Jogou aonde seu Christie? Aqui não, porra! - teria dito Dom Pedrão, The second of his name.


Para fazer curta uma história longa, Dom Pedro II colocou a piroca imperial na mesa, chutou a bunda do embaixador (vaza daqui seu safado) e falou, pode vir, Império Britânico. Quer guerra? Vem que aqui tem guerra! A treta esquentou até que a turma do deixa disso entrou no meio (arbitragem internacional) e, no fim, deu razão para o Brasil, obrigando os ingleses a pedirem desculpas pro Papai BR - respeita a minha história.


O episódio é conhecido como a Independência Moral do Brasil, nada mais justo.
Enfim, a gente se deu bem tanto no Século XIX, quanto no XXI, pois Ronaldinho Gaúcho só não fez chover naquele dia, dibrou*, deu assistência e ainda bateu uma falta improvável, num chute que carregava a precisão e o fator surpresa de um petardo de Josimar e meteu lá no ângulo do Seaman.


Quando todo mundo esperava o cruzamento, ERREDEZ (ARTEN) bateu pro gol para o desespero rogeriocenesco do goleiro Seaman (homem-mar) e classificou a Seleção Brasileira para as semi-finais. O jogo foi difícil, sim. Contra eles sempre será. Mas é justamente na maior dificuldade que surgem os grandes heróis e os grande feitos.


Ou seja, os ingleses são nossas putinhas desde 1862.


Vão querer CPF na nota?


O resto é história.