No melhor jogo da Copa do Mundo, Brasil e Bélgica cumpriram todas as expectativas

A Bélgica foi cirúrgica e fez a partida de sua vida contra o Brasil. Muitos méritos para o trio que já era bola cantada: Kevin De Bruyne, Eden Hazard e Romelu Lukaku. Mas o que poucos esperavam, nem mesmo Tite, é que o técnico Roberto Martínez roubaria a cena e daria um nó tático na Seleção Brasileira nos primeiros 45 minutos de partida. O treinador de respeitável sucesso em solo inglês, surpreendeu não na troca dos jogadores, Fellaini e Chadli já eram especulados como possíveis titulares, como você leu aqui. Mas a forma como ele rearranjou a formação titular não só encaixou perfeitamente nos pontos fracos da Seleção Brasileira, como também potencializou em 100% as características do trio citado acima.


Getty Images
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A careca pensante de Roberto Martínez, símbolo discreto da vitória belga sobre o Brasil de Tite.


Com Lukaku, que Martínez conhece muito bem desde os tempos de Everton, sabia que poderia contar com o tanque de guerra belga em qualquer uma das funções no ataque. Escolheu por colocá-lo de ponta esquerda com 3 objetivos definidos: explorar as costas de Marcelo, tirar Miranda da zona de conforto no miolo de zaga, e abrir espaço na intermediária ofensiva para que De Bruyne transitasse livremente nas costas de Fernandinho. Bingo!


HexaDiário/Instagram
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Lukaku e cada uma de suas 26 ações com bola contra o Brasil. Quase todas elas da esquerda para o meio, explorando o lado de Marcelo.


Com a entrada de Fellaini no lugar de Mertens, a Bélgica passou a ter 7 dos 11 jogadores titulares com mais de 1,85 m. Ganhou em poder de marcação, perigo na bola aérea, congestionou o meio no lado de Neymar e, talvez o mais importante: deu total liberdade para Kevin De Bruyne jogar o que sabe. Procurando quase sempre a meia-esquerda de ataque, ficou num mata-burro para o Brasil, onde Fernandinho não o encontrava, e deitou e rolou na armação e finalização de jogadas. Deu aula de falso-nove!


HexaDiário/Instagram
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Kevin de Bruyne esteve solto! Correndo por todos os lados, mas principalmente pela meia esquerda, se associando com Hazard.


Chadli não jogou de ala-esquerdo, como vinha fazendo Carrasco. Martínez foi preciso ao deixar Vertonghen, e não Chadli, bater de frente com Willian. O zagueiro do Tottenham jantou o meia do Chelsea como lateral enquanto o brasileiro esteve em campo. Chadli jogou como meio-campista pelo lado esquerdo, mais um por ali! Tudo para que Hazard e Fagner ficassem no mano a mano. E como Hazard foi infernal! Engoliu o lateral do Corinthians e acertou 100% dos 10 dribles que tentou, uma marca impressionante. Sempre bem posicionado e com leitura de jogo perfeita, segurou a bola em momentos cruciais da partida e deu fôlego e tempo para o sistema defensivo belga se reposicionar no abafa que o Brasil fez no segundo tempo. Que partida do camisa 10!


A proposta de jogo belga foi inteligentíssima. Mesmo com todo o talento de seus jogadores, reconheceu que o Brasil era superior. Atuou em função dos jogadores brasileiros e talvez tenha achado sua formação titular ideal para qualquer partida. A variação tática de Roberto Martínez mostra que a supresa pode sim ganhar jogo. Tite, por exemplo, é mais metódico e conservador. É inimaginável pensar no treinador brasileiro entrando em campo com uma formação e disposição tática jamais vista ao longo de seu trabalho. Pode ser uma lição a ser aprendida por Adenor, que ao que tudo indica terá mais 4 anos e um ciclo completo de trabalho para a Copa do Mundo no Catar, em 2022.


Divulgação/FIFA
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A real formação da Bélgica segunda relatório da FIFA. Um time feito para enfrentar o Brasil.


Foi uma sacada genial de Martínez, mas a verdade é que o Brasil também fez uma boa partida. Demorou a entender o que estava se passando em campo, mas, no segundo tempo, encaixou a marcação e encurralou os belgas. Não empatou o jogo por mero detalhe. Tite voltou do intervalo com Firmino no lugar de Willian e com Gabriel Jesus aberto pela direita. Opção que seria venerada caso o pênalti claro no camisa 9 tivesse sido marcado. O jogo seguiu e Jesus justamente saiu para a entrada do incendiário Douglas Costa. É de se lamentar muito a lesão de Douglas contra a Costa Rica. Certamente teria ajudado mais este time e tomado a vaga de titular para si. Detalhes que fazem a diferença, como a suspensão de Casemiro. Que falta fez o nosso camisa 5! Se Casão estivesse em campo, a história seria outra. Mas o “se” não joga.


O Brasil martelava e se arriscava atrás. Não fosse a atuação monstruosa de Miranda no um contra um contra Lukaku, e Thiago Silva se desdobrando na cobertura de Fagner, teríamos levado o 3º gol. Mas o risco tinha mesmo de ser corrido. Paulinho, em Copa do Mundo para esquecer, deixou o campo para Renato Augusto ter sua oportunidade. E foi muito bem o camisa 8. Construiu desde trás e deu opção com infiltrações da mesma forma que Paulinho se notabilizou na carreira. Assim saiu o gol brasileiro e da mesma forma quase saiu o empate. Na melhor chance do segundo tempo, Renato recebeu na entrada da área e chutou firme para tirar tinta da trave de Courtois. Firmino ainda girou bonito e bateu de pé esquerdo com muito perigo, e Neymar parou em Courtois na chance derradeira de nos mantermos na Copa.


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Renato Augusto quase empata o jogo em chute perigosíssimo da entrada da área. A reação dos belgas mostra que eles já esperavam pelo pior.


Neymar não foi aquele Neymar que esperávamos durante toda a competição. Ficou nítido que o brasileiro não se adaptou totalmente à recuperação de sua lesão no pé. Pareceu sempre desconfortável, com uma condução de bola imprecisa e que compromete todo o seu jogo. Não estou defendendo o camisa 10, mas apenas apresentando um fato. Quem viu Neymar jogar com as camisas de Barcelona e PSG nas últimas duas temporadas sabe bem do que estou falando. Se um extraterrestre, ou mesmo aquele torcedor que só assiste futebol durante a Copa, chegasse para ver quem é Neymar apenas por suas atuações na Rússia, certamente sairia frustrado.


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Neymar: foi quem mais criou chances de gol, buscou o jogo, se apresentou... Para qualidade que sabemos que ele tem, foi pouco.


O Brasil, por seu volume e chances criadas no segundo tempo, se tivesse empatado e posteriormente vencido o jogo de alguma forma, teria uma classificação justa. Mas também é muito justa a classificação belga, perfeita no que se propôs a fazer. Não tenho dúvidas que os Diabos Vermelhos serão um time duro de eliminar nesta Copa do Mundo. Ao Brasil, resta aprender as lições e não dramatizar o momento. O trabalho de Tite foi bom, mas com erros, principalmente na convocação dos atletas. Escreverei ainda um post dedicado às falhas de Adenor. Torço demais para a permanência dele no cargo de comando máximo do futebol verde e amarelo. Um eterno incomodado, Tite certamente tirará lições positivas de sua missão na Rússia. Que elas sejam aproveitadas até o Catar.


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Não se desculpe, Tite. Quando errou, foi tentando acertar. E acertou muito! Fez excelente trabalho e que merece continuidade. Tem muita crítica justa e bem fundamentada, mas a maioria delas é resultadista e oportunista. Não se deixe abalar, você é dos grandes.