Sport na Série B? Essa noite, não

Williams Aguiar/Sport Club do Recife
Williams Aguiar/Sport Club do Recife

Dois deuses se saudando


O ser humano, em sua eterna briga contra a balança e a vaidade que o persegue, está sempre à procura de formas de queimar seus quilinhos extras, seja para fazer sua figura caber no espelho, entrar naquele vestido de noiva, jogar aquela pelada mais solto, celebrar a solteirice ou só pelo prazer de ser saudável mesmo. E aí entram as fórmulas e dietas mirabolantes, chá verde, academia, termogênicos, maratona, sexo tântrico e até lipoaspiração, que é meio punk. A ciência busca ajudar e sempre encontra uma maneira eficiente de nos fazer atingir o objetivo de afinar a silhueta. Fechar a boca funciona bem. Caso seja impossível, entre as atividades físicas mais efetivas, o futebol parecer ser uma das melhores alternativas. Falam isso por causa da montanha-russa cardíaca que o esporte bretão nos proporciona. Ao não manter uma corrida estável e velocidade regular, sempre nos movimentando na base do tiro, oo coração está sempre sendo desafiado. Umas vezes aguenta, outras não, mas a tendência é que o exercício nos seja benéfico.


O melhor de tudo: você aí, cidadão comum, sentado no seu sofá vendo algum concurso de dança dominical na televisão abraçado àquela pizza encharcada no óleo, suas artérias berrando de excitação, nem precisa comprar as chuteiras do peso na consciência e jogar a primeira bolinha que encontrar no meio da rua. Solução: torce pro Sport, amigo. Desde o meu primeiro texto aqui que eu falo da tal dicotomia da torcida, mas convenhamos que ela também se aplica ao time. É a maior montanha-russa em linha reta da América Latina e sul da Itália. Torce pro Sport, minha amiga, e veja a excitação que é ter seu time disputando vaga na Libertadores e, 4 meses depois, tomar um tiro no peito a cada gol adverso que outros times - que não o seu - sofrem, ao mesmo tempo que você ainda precisa ver o seu próprio time vencer o campeão antecipado do campeonato, que não tirou o pé.


Um amigo cruzeirense me mandou uma mensagem logo após o gol de André. "35 minutos longos esses próximos, hein?" Antes fossem só 35 minutos. Eu contei 3 dias e 17 horas até o fim do jogo. Não, não tem nada disso do tempo passar mais devagar, balela. É que a quantidade de batidas cardíacas no primeiro período de tempo foi equivalente ao que eu teria no segundo. Queimei o almoço de hoje e as esfihas dequele fast-food árabe de ontem à noite apenas numa sentada. Parece perfeito, né? Eu acho. É imprevisível e divertido. Pros outros. Pra gente que torce pra esse time maldito, resta passar o ano fingindo para os amigos que está tudo bem, quando, na verdade, a tensão e a angústia lhe corroem por dentro. Mas quem nasceu Sport, leva esse fardo pro resto da vida. É difícil, é desanimador, é triste e deprimente. Mas uma olhada muito rápida ao redor é suficiente pra saber que sempre pode ser pior.


Fica o agradecimento aos jogadores, que resolveram doar um pouco de sangue nessa reta final; a Daniel Paulista, que só pega em bomba; à torcida, que compareceu em bloco e massa; a Túlio de Melo e à Chapecoense inteira, esse time lindo que já é o segundo no coração de todo brasileiro - não só por ter sido um resultado que interessava ao Sport, mas que, ao mesmo tempo, levou a equipe novamente à Libertadores e deixou mais um representante do Nordeste na Série A, o Vitória.


Mais um ano pra esquecer. Porém, antes de formatar tudo, que venha o aprendizado. Tanto se fala em planejamento dentro do clube, mas é o que a gente menos vê rolar. Esperamos que já exista um técnico contratado - sem oba-oba com Daniel Paulista novamente, com todo o respeito ao profissional dedicado que é - e jogadores decentes engatilhados. Além, claro, de uma força-tarefa para manter os jogadores que a torcida adotou. Patrick é a grande prioridade, esse não tem substituto. Diego Souza também não tem, mas é preciso ver se ele anda na pilha de continuar, já que ainda mira a Copa. Anselmo, Raul Prata, Sander e Marquinhos foram importantíssimos nesses últimos jogos. Portanto, também merecem uma continuidade.


Enfim, encerramos mais um ano com lágrimas nos olhos. Sinto muito por aqueles que não tem esse tipo de emoção. Torcer pro Sport é padecer no paraíso. E que venham as peruas.