Sport 2018: The Age of Nelsinho

Todo ano, a mesma coisa. A gente enfrenta um adversário latinoamericano (já que os europeus tem medo de passar vergonha em Recife) e - bang - título novo pra sala de troféus. A Taça Ariano Suassuna, por mais que seja uma belíssima homenagem ao maior rubro-negro pernambucano nascido na Paraíba da história do continente, já tá dando sono. Não há mais adversário pro Sport nesse pedaço de terra. Mesmo sendo o primeiro jogo da temporada de um time completamente desfigurado. Mas a camisa assusta y todos se tiemblan.


Enquanto isso, em outros rincões da cidade, tem torcida comemorando classificação penosa, nos pênaltis, sobre adversário fora-de-série, como fosse título. Cada um com seus parâmetros.


Mas, de volta à Série A. O ano já havia começado com uma certa desconfiança por parte da torcida. Nada de novo por aqui. A diferença é que, nos anos anteriores, pelo menos tínhamos uns nomes no elenco pra empolgar. Mesmo que farsas do naipe de Mark González, o modelo de cueca chileno-paraguaio. Os nomes que mais chamaram a atenção dessa vez foram os dos que partiram. Estranho ver o time sem Diego Souza, sem aquela malandragem em campo, aquela cadência devagar, quase parando. Ao mesmo tempo que isso pode acabar nos sendo um trunfo para esse ano. Bastaram 5 ou 10 minutos pra perceber o dedo de Nelsinho Baptista ditando as regras do time. Nelsinho é um treinador à moda antiga: 4-4-2 em linha, é exigente, beira o perfeccionismo, ao mesmo tempo que é tranquilo e faz o estilo paizão. Nesse primeiro jogo, já foi possível ver um time mais organizado, em vez do bando que nos acostumamos a ver nos últimos dois anos. E sem Diego Souza, vamos ter sempre um jogador a mais correndo em campo. Os toques estavam rápidos, tivemos triangulações, boas tabelas, futebol consciente. Se resolvermos ganhar algo esse ano, vai ser no esquema 2008: muita expiração, pra não dar nem tempo de pensar. Futebol físico, disciplinado. Time operário, do jeito que a torcida gosta.


Ficou claro que Marlone vai assumir o protagonismo e comandar as ações ofensivas do time. Ainda não entendo como esse rapaz não rendeu nos outros times. É inteligente, tem os fundamentos, parte pra cima da defesa sem medo. Não é craque como nosso Embaixador, mas é diferenciado, sem dúvida. Então, ao menos no papel, temos um trio de frente interessante, junto com Rogério e André. O lado direito ainda tá capengando, porque Índio não me parece um jogador que vai ganhar aquela vaga. Ainda me pareceu meio afobado com a bola queimando nos pés. Sobra vontade, mas essa ansiedade pode acabar interferindo no jogo. A base do Sport, na verdade, anda um lixo faz muito tempo. Desde o advento da Lei Pelé, tivemos apenas espamos de revelações. Ciro, em 2009, que depois mostrou ser uma farsa; Joelinton, em 2014, que anda buscando o espaço dele na Europa, e Everton Felipe, que me parece o mais talentoso dos três, faltando apenas um empurrãozinho pra deslanchar. Esse deve ser o titular daquele lado quando voltar, já que Lenis certamente não vai muito além da correria habitual. Aliás, até vai. Vai até passar da própria correria, de tão agoniado que é.


Quem jogou muito foi Anselmo. Mas MUITO. Pelo menos no primeiro tempo. No segundo, caiu junto com o resto do time. Enquanto esteve inteiro, jogou duro como se espera de um volante daquele tamanho. Mas foi além. Tava distribuindo uns passes maravilhosos, que deve ter feito Rithely suar frio lá no camarote, considerando que ninguém vai pagar o valor que o Sport quer e que terá que jogar mais um ano na Ilha. Mas, francamente, com a debandada do elenco, principalmente Patrick, eu até aceito Rithely no time esse ano caso ele se desculpe ajoelhado no gramado perante a Leo, o mascote. Enfim, ele e Anselmo, pela bola que o segundo jogou ontem, inclusive arrancando com a bola com maestria em alguns momentos, formariam uma dupla bem interessante, com grandes possibilidades de desafogar o jogo com umas enfiadas e viradas de jogo.


De resto, tivemos Sander jogando com a vontade de sempre. O cara parece imigrante alemón no pós-guerra brigando por um pedaço de terra no sul brasileiro pra poder plantar seus repolhos. O que falta nele de técnica, sobra de raça e isso já compensa muita coisa. Vibrou demais com o gol, num reles amistoso, e isso também conta. O novato Pedro Costa foi, talvez, o piorzinho em campo. Errou todos os passes de que tenho lembrança.


Resumindo: pra um primeiro jogo, valeu. Nelsinho mostrou que, quando o cara CONHECE, o trabalho flui, os jogadores respeitam. Naturalmente, esperamos que isso que vimos evolua. E que o time ainda cresça tecnicamente à medida que pega ritmo. Mas, como sempre, é preciso paciência, aquele velho ingrediente que a torcida do Sport já raspou da panela faz tempo...