O Sport sendo o Sport na estreia do Brasileirão

O cancioneiro popular, sob a voz do nosso imorrível Di Melo, afirma com propriedade que a vida, em seus métodos, diz: calma. E, em seu refrão, repete a palavra "calma" repetidamente, até você se irritar com isso. Lembrem dessa canção, porque ela será a tônica do discurso da comissão técnica, diretoria e jogadores até a gente escapar do rebaixamento na última rodada. Novamente.


Ou não. O jogo de hoje contra o Coelho foi curioso. Queria poder entrar na cabeça de Nelsinho Baptista dessa última semana. Queria ler aquele ponto, aquele instante em que bateu a centelha que iluminou os pensamentos dele com a seguinte ideia: "vou promover a estreia de cinco desses jogadores que chegaram essa semana, tudo assim, de uma vez, fechar os olhos e ver o que acontece". Ele deve ter achado uma ideia brilhante, mesmo a sentença possuindo todos os predicados para o anúncio de um desastre gritando veementemente em sua cara. Mas ele apenas ignorou.


Não se trata apenas das estreias. É um completo absurdo, é algo que vai contra todas as cartilhas do futebol disponíveis no mercado, é revoltante de tão óbvio: por pior que seja a sua defesa, não mude o sistema inteiro de um jogo pro outro. Do goleiro ao lateral-esquerdo, foram quatro mudanças. Quatro de cinco. Três delas não-forçadas. E uma defesa batendo cabeça por desentrosamento em uma tarde pouco inspirada do seu goleiro reserva combina tanto com excesso de gols adversários quanto cerveja na beira da praia com um caldinho de sururu. Queimando.


Mourão Panda/América-MG
Mourão Panda/América-MG


Revi os três gols do América e Agenor falhou miseravelmente nos três. A defesa também, mas um goleiro de nível razoável evitaria o primeiro e o terceiro. Não vou falar do segundo porque. Isso liga o alerta, mostra que não dá pra contar com ele para ser o substituto de Magrão de forma alguma. Tanto que a diretoria já havia saído em busca de um outro goleiro essa semana que passou. Caso se confirme, acho bem improvável a permanência de Seu Agenor no elenco.


Em termos de criação, o Sport pouco fez no primeiro tempo. Um exagero de passes errados. O time não conseguia trocar três passes seguidos, não havia ninguém no meio para flutuar pedindo bola, para fazer o intermédio com os demais jogadores. Com três volantes, fica realmente difícil.


Na volta do intervalo, Bob Pai fez duas mudanças visando consertar as próprias cagadas. Duas mudanças que não deveriam ter sido feitas porque era justamente aquele time que deveria ter iniciado o jogo, com as peças à disposição. A entrada de Sander jogou Raul Prata, destro de nasçenca, de volta para a sua posição de origem, já que não produziu nada na lateral-esquerda e nem merece ser crucificado por isso. Acho que Winck até mostrou alguma qualidade, mas vai ter que ganhar a vaga primeiro. Gabriel entrou bem no jogo, na vaga de Ferreira, que - confesso - mal vi. Ele esteve presente em todas as boas movimentações ofensivas, movimentando muito e dando a opção de passe que faltou no primeiro tempo. E mostrou que a dupla de volância já tem cara: Anselmo e Felipe Bastos são os titulares indiscutíveis.


O menino Andrigo, nosso Little Messi, deve ter algum talento, mas não é o de fazer gols. Perdeu dois cara a cara com o goleiro. O primeiro, na pequena área, logo no início do segundo tempo, poderia ter mudado a cara do jogo, já que o Sport sobrou em campo depois do intervalo - mais por inércia de um América acomodado que pela nossa própria qualidade, que se diga. O outro estreante, Hygor, é um atacante na melhor tradição dos grandes envergadores da camisa 9 do Sport, da estirpe de Guto, Nunes e Eliandro. Vai fazer raiva sempre que sair do banco no segundo tempo até o fim do ano.


Resumindo: o time do segundo tempo, com a dúvida entre Gabriel e Everton Felipe na função do 10 e as devidas alterações nas extremidades - goleiro e centroavante - pode até fazer uma graça. Basta Nelsinho não inventar. A torcida do Coelho que não se deixe levar pelo resultado de hoje: o time deles é bem fraco e achou esses três gols. Tecnicamente, o Sport mostrou ser bem superior no segundo tempo. Aos trancos e barrancos, seguiremos. Calma, calma, calma, calma, calma. Calma.