Lucas Moura chega ao Tottenham com um estigma a ser quebrado

Por Lucas Colenghi


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Fim da novela: depois de pelo menos quatro anos, Pochettino acertou uma contratação de peso para o setor ofensivo


Lucas Moura finalmente foi anunciado pelo Tottenham. A cria do São Paulo de 25 anos já havia sido especulado como alvo da atual comissão técnica do clube em janelas anteriores, mas só agora é que tudo se acertou.


Na semana anterior à transferência, Lucas visitou os campos de treinamento do clube, conversou com Mauricio Pochettino e viu ali, ao que tudo indica, uma oportunidade de retomar o alto nível que chegou a mostrar em determinados momentos de sua carreira. Só o que faltava era Tottenham e Paris Saint-German se acertarem quanto aos valores.


Com o que se apura nas imprensas inglesa e francesa, é possível dizer que o acordo tenha sido fechado por cerca de 25 milhões de euros - valor justo considerando a inflação do mercado do futebol atualmente. Haja vista que Malcom, do Bordeaux, estava sendo especulado por €40M há pouco tempo antes, o montante pago por Lucas Moura se mostra além de apenas adequado.


Mas ainda vestindo o fardo de “eterna promessa” e flop na Europa, o ex-são paulino chega a Londres visando provar que pode ser um jogador de alto nível mundial e quem sabe até cavar uma vaga para a Copa do Mundo de logo menos.


De 2012/13 (quando chegou ao PSG para a metade final da temporada vindo do São Paulo) a 2016/2017 (temporada europeia anterior à atual, quando o jogador ainda atuava com regularidade), Lucas havia feito 223 jogos pela equipe parisiense, tendo marcado 45 gols e distribuído 94 assistências. Entre 2015 e 2017, criou mais que o dobro de chances claras (25, de acordo com o Squawka) que Hazard, Sterling e Mané em seus respectivos clubes. E é claro que muitos podem questionar os números da Ligue 1 – mesmo que sequer vejam os jogos de lá -, mas a verdade é que, friamente, são bons números.


Em 2017/18, porém, a história foi diferente. Com a chegada de Neymar e Mbappé, a afirmação de Julian Draxler e a vontade de Dí Maria em finalmente retomar o bom nível apresentado na época em que defendeu o Real Madrid, Lucas perdeu completamente o espaço. Foram 6 jogos apenas: 1 gol e 1 assistência. Todos os jogos por competições domésticas. Na UEFA Champions League, até chegou a ser relacionado, mas sequer entrou em campo.


Posto isso, é preciso entender: o que o Tottenham ganhará com sua chegada?


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Lucas já teve boas experiências visitando um certo rival



Se me pedissem para responder em uma palavra, eu não titubearia em falar: velocidade. Desde Gareth Bale, o Tottenham não possui um jogador capaz de apostar corrida com adversários e ganhá-las - até teve Townsend, mas este só corria para os lados. Heung-Min Son é o mais próximo disso que a equipe tem hoje, mas o sul-coreano se notabiliza mais por sua capacidade de finalização e drible curto, do que propriamente por ser um velocista.


O cenário, portanto, parece perfeito, se não fosse por um detalhe: o Mauricio Pochettino que o convenceu a se juntar ao clube é o mesmo Mauricio Pochettino que já queimou dois jogadores de velocidade que vieram da mesma Ligue 1 em que Lucas jogava.


Clinton N’Jié chegou do Lyon em 2015 como uma promessa muito bem vista na França. O camaronês é absurdamente veloz, tanto é que segue sendo útil hoje em dia pelo Olympique Marseille. Depois, Georges-Kevin Nkoudou chegou justamente na transferência que enviou N’Jié ao Marseille. Pouco aproveitado na primeira temporada em que esteve no clube (16/17), o francês só começou a ganhar chances de fato em 17/18. Chegou a fazer um gol pelo clube na Liga dos Campeões. E o que Pochettino lhe deu como prêmio? Chá de banco eterno e um empréstimo ao Burnley pelo restante da temporada.


Não adianta: o treinador argentino não gosta de jogadores de velocidade. Fica a impressão de que ele prefere o toque para trás e a dificuldade de controlar uma bola de Moussa Sissoko às insinuantes corridas de um jogador no estilo do saudoso Aaron Lennon (outro nome do qual ele se desfez).


Agora, lendo isso, você deve achar que o cenário virou contra Lucas, certo? "Achou errado, otário". Quer dizer, Lucas é, de fato, um velocista, mas felizmente não resume a um velocista. É um jogador que sabe carregar a bola, sabe driblar e tem visão de jogo. Finaliza bem, participa bastante taticamente e lê situações de jogo com sabedoria. O brasileiro também é muito combativo e me parece muito capaz de se adaptar ao futebol inglês, assim como Coutinho se adaptou depois de não se dar muito bem na Itália e evoluir na Espanha.


No fim das contas, ele me parece, sim, apto a quebrar o estigma criado na mente churrasqueira de Pochettino. Mas isso pode ser fruto apenas de uma última esperança que toda a torcida nutre para o restante dessa decepcionante temporada atual em termos domésticos.