O Tottenham finalmente fez as pazes com o Wembley

Nunca esqueço que o nome do rapaz era Paul. Só não lembro o sobrenome, indiano, complicadíssimo de ser pronunciado, mas que consegui repetir corretamente uma vez - e só uma vez - com a ajuda do dito cujo. Guia do Wembley há quase cinco anos, Paul não me prendeu a atenção apenas por ser simpaticíssimo, mas sim por se referir ao Arsenal como “aquele outro time do norte da cidade” numa visita para turistas que não tem nada a ver com a rivalidade local, e por dizer que o Chelsea não existia antes de 1990 para visitantes que pareciam não acreditar que ele falava a verdade. Não precisava, mas perguntei se ele era Tottenham, por desencargo de consciência. Ele respondeu: “Opa, não disfarcei bem?”.


Seu sorriso tocou o pé da orelha quando contei que tinha viajado do Brasil até lá às pressas só pra conhecer o White Hart Lane antes que fosse demolido. “Eu já me separei, então digo com certeza que aquele lugar me deu as melhores memórias da minha vida.” Mas mesmo com as doses de nostalgia para ele e de euforia para mim (que só havia visto o estádio por fora nessa altura da viagem), não conseguimos manter o assunto no norte da cidade por muito tempo. “Sem querer te assustar, já faz um tempo que eu trabalho aqui dia após dia. É muito diferente. Não tem brilho. Eu morro de medo de sequer jogarmos bem aqui.”


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Aquele colosso realmente é desprovido de alma, de brilho, de perfume. A única cor que se vê além do verde no gramado é o vermelho das cadeiras de plástico que diminuíram algumas vezes o número de crentes que podem rezar a missa de dentro da maior igreja da Inglaterra. De resto, concreto, metal e aquele pó que a gente tira do chão do sótão depois de dois meses sem subir lá.


O White Hart Lane, por sua vez, era o oposto. Era como entrar no seu quarto depois de uma semana na casa da tia-avó. Como já descrevi, era lar compartilhado, baú de recordações, sala de terapia em grupo, válvula de escape, santuário, palco de dramas e cenário de epopeias, um espaço que te serve experiências tântricas ou de quase-morte sem o nosso aval (mas com o irracional consentimento). Duas realidades antagônicas a menos de 10km de distância.


Mesmo assim, eu tentei dar um tom otimista ao passarmos pelo palanque por onde sobem aqueles que vão levantar troféus – que, diga-se de passagem, tem mais chicletes grudados nas paredes do que qualquer outro lugar do mundo, provavelmente culpa de Alex Ferguson. “Espero ver o Lloris subindo aqui também no ano que vem, nem me importa a taça.” Ele riu, concordou, mas fez aquela cara de ‘sabe como é’. E, sim, eu sei como é.


Você também sabe como é. Nós vimos como é. Nós sentimos como é. E nós conseguimos ver o ‘é’ virar ‘era’.



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Quer dizer, o Lloris não deve levantar taça nenhuma esse ano (não, né?), mas mesmo sem um marco físico de metal maciço com fitas azuis e brancas dos lados, o Tottenham colocou outra maldição abaixo, e nós fomos agraciados em assistí-la caindo por terra.


Pra não dizer *melhores*, as mais memoráveis atuações desta temporada, na qual o Tottenham joga em casa sem ter casa, como um inquilino orgulhoso de seu jardim de flores de plástico, tiveram o Wembley como palco. O mesmo Wembley em que tivemos oito derrotas em nove partidas entre 2008 e 2016, sem contar as frustrações pré-modernas. O mesmo Wembley no qual fomos incapazes de dar replicar as performances imaculadas do último ano de White Hart Lane. O mesmo Wembley que sempre parecia sugar até drenar nossa fartura imaginária de capacidade, poder e excelência.


Nesse último dia de janeiro, o Tottenham foi, pela primeira vez na temporada, o Tottenham do White Hart Lane. Não foi maior do que contra o Real Madrid (no Wembley), nem mais imperdoável do que contra o Liverpool (no Wembley), nem mais implacável do que contra o Borussia Dortmund (também no Wembley), de fato. Mas foi aquele Tottenham incansável, vívido, tenaz, sublimemente arrogante e arrogantemente sublime, como gostávamos de ver na já finada (e saudosa) fortaleza retangular de aço que marcava o meio da High Road.


E assim, sem dor ou pudor, desmantelamos um poderoso Manchester United que ainda deve estar agradecendo o fato da memória quase sempre guardar melhor os algarismos no placar final do que a narrativa contada pela bola. A história relatada pela boca de quem viu seu desenrolar (e por estas palavras), inclusive, não vai ser capaz de explicar exatamente por que o jogo acabou só 2-0, mas certamente vai conseguir abrir um sorriso como aquele do Paul, de uma orelha a outra.


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Como é delicioso ver o time de Pochettino jogar. Como é empolgante acompanhar Alli conduzir a bola como quem dorme e acorda com três ases em cada manga. Como é prazeroso assistir Vertonghen fazendo o trabalho mais sujo do esporte com a elegância de um Rolls-Royce. Como é delicioso tentar antecipar o próximo passo de Eriksen mesmo sabendo que ele vai te surpreender de qualquer forma. Como é gratificante ser contemporâneo de Harry Kane!


Eu acredito meio perdidamente que nós (nós, digo, caso você também seja Tottenham) não temos a dimensão do que isso tudo pode vir a significar daqui a uns dez ou vinte anos. Mas eu, que (in)felizmente tenho essa necessidade doente de romantizar até a feijoada de quarta-feira, vivo cada segundo dessa época querendo (e tentando fazer com) que ela se torne fábula para quem terá o White Hart Lane apenas como um fantasma bem querido. E é por isso que a atuação que fez o tão resiliente Mourinho virar do avesso merece todos os louros possíveis. É um episódio disfarçadamente clamoroso para quem passou décadas se sentindo Davi e conseguiu derrubar (outro) Golias.


Tudo isso para dizer: eu te abraço, Wembley. Ainda que sem alma, sem cor e sem cheiro, você não é mais um nêmesis. Por mais que nunca tenha nos servido com o conforto de uma casa, demorou, mas nos entregou memórias saborosas que não vão secar – e por mais que tenham sido de total crédito dos homens em branco e azul, não teriam se concretizado da mesma forma em outro estrado.


Me sinto realizado. E o Paul deve estar mais ainda. O Tottenham regou tanto as flores de plástico que as fez crescer.