O Tottenham realmente queima jogadores brasileiros?

Graças às novelas envolvendo a contratação de Lucas, fui impactado nos últimos dias de janela de transferência pela seguinte publicação do virtuoso perfil Corneta Europa, sobre o então possível acerto com o ex-são paulino: “Lucas Moura no Tottenham parece um daqueles negócios onde todo mundo perde. Um cara que ainda é promessa e já tem 25 anos num time famoso por (tentar) liquidar a carreira de brasileiros. Boa sorte.


Tá certo que há tempos não é possível levar o tal perfil - constrangedoramente forçado e simplista - a sério, mas foi ótimo ver reaparecer uma questão não é de hoje (é, talvez, de... 2015?). Graças à passagem frustrada de Paulinho, que agora é simplesmente uma das principais engrenagens do Barcelona, o Tottenham ficou marcado por supostamente queimar brasileiros. Mas essa constatação é verdadeira? Ou pelo menos faz sentido?


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Ossie e Ricky foram os heróis que tiraram o Tottenham do poço e o colocaram no caminho dos títulos


Vamos começar do começo, ainda antes do primeiro brasileiro chegar no saudoso Spurs Lodge, em 2008. Quarenta anos antes, o clube deu início a um laço afetivo bastante curioso com uma nação inimiga da coroa britânica e, é claro, do Brasil: a Argentina. O técnico Keith Burkinshaw foi buscar os campeões mundiais Ricardo Villa (do Racing) e Osvaldo Ardiles (do Huracán) logo após a Copa de 1978.


Ossie e Ricky se tornaram heróis instantâneos numa época em que era muito raro ver estrangeiros no campeonato inglês. Os hermanos conquistaram duas FA Cups e uma Community Shield (Ardiles ainda ganhou a UEFA Cup em 1984, mas sem já Villa ao seu lado) em plena Guerra das Malvinas, valorizando ainda mais a idolatria e o carinho da torcida pelos atletas.


Criou-se, então, um vínculo forte que reverberou nas décadas seguintes. E mais de 40 anos depois - com só um outro argentino (Mauricio Taricco) no caminho, mesmo que Ossie tenha virado treinador e diretor, Ricky embaixador, e o time tenha disputado dezenas de amistosos em terras portenhas -, Pochettino surgiu para reforçá-lo. Portanto, a renovação deste elo com a Argentina deve servir como motivo para o brasileiro olhar torto. E até faz sentido pra quem insiste em cultivar este ódio de etiqueta no país mais preconceituoso da América (que de certo rola entre os hermanos também). Mas este pilar não resume a questão e a conversa aqui é outra.



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Voltamos ao Spurs Lodge em 2008, onde o lateral Gilberto, ex-Grêmio, chegou do Hertha Berlim mesmo depois de reprovar duas vezes nos exames médicos (imagine o estado do nosso flanco esquerdo na época). Passou uma temporada na Inglaterra, jogou menos de 30 jogos e foi um dos piores defensores de uma época bastante esquecível da história recente do clube. Foi para o Cruzeiro no fim da temporada. Então, nesse caso específico, o Tottenham nem de longe queimou Gilberto, mas Gilberto queimou milhares de neurônios e nervos dentro do White Hart Lane.


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Na sua estreia pelo Tottenham, Gilberto errou tanto que foi substituído no intervalo


Seis meses depois da chegada de Gilberto, no meio de 2008, Juande Ramos foi buscar Gomes no PSV. O goleiro chegou para ganhar a titularidade que pertencia ao saudoso Paul Robinson, (que se transferiu para o Blackburn) e, de certa forma, honrou a posição, apesar do começo difícil de temporada que resultou na demissão do treinador espanhol (e na chegada de Harry Redknapp).


Acontece que o mineiro é o tipo do goleiro que pega um pênalti impossível espalmando a bola para fora só para tomar um frango no rebote do escanteio (aconteceu duas vezes). Foi um dos responsáveis pela inédita classificação para a Champions League em 2009, mas também carrega o fardo de outras dezenas de decepções de uma época inconsistente e incoerente da história dos Spurs.


No fim das contas, depois de quase quatro anos de titularidade absoluta, acabou cedendo seu espaço debaixo das traves a um reforço emergencial: o já veterano Brad Friedel (com 40 anos nas costas, o que diz muito sobre os desempenhos do mineiro naquele ponto da narrativa). O problema foi que, por saber de seu potencial e capacidade, Redknapp ainda queria contar com o brasileiro no elenco, mas Heurelho se desanimou e ficou de malas prontas graças à chegada de seu concorrente de posição. O CSKA chegou até a acertar salários com o Gomes, mas o treinador barrou sua saída por ainda querer que o arqueiro retomasse sua posição na equipe.


Gomes acabou ficando no norte de Londres até depois da saída de seu dito algoz, em 2013 - que foi publicamente comemorada por ele, inclusive -, e abraçou a chegada de André Villas-Boas. Porém, o português rapidamente notou a necessidade de dar um passo importante na qualificação do setor defensivo. Em agosto, trouxe Hugo Lloris, do Lyon, e Gomes se viu com ainda menos chances de voltar ao time principal, uma vez que o francês se estabeleceu entre os melhores goleiros do campeonato desde que chegou.


Para não mofar como terceiro goleiro, então, foi emprestado ao Hoffenheim, mas também não vingou. Quase sem chances de jogar, acertou sua saída para o Watford, em 2014 - onde, verdade seja dita, faz um bom trabalho. 


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A passagem de Gomes pelo Tottenham foi de sonho a pesadelo


O volante Sandro, pérola do Internacional, foi contemporâneo do mineiro no White Hart Lane. Contratado como promessa em 2010, fez uma transição do banco até o time titular sob a tutela de Redknapp que lhe tomou pouco mais de dois anos, mas o (também) mineiro foi uma sensação assim que se firmou no meio de campo de Villas-Boas.


Perguntando para qualquer torcedor dos Spurs (principalmente na Inglaterra), fica evidente que até hoje se cultiva um carinho muito especial com o ex-camisa 30, carinhosamente apelidado de ‘The Beast’.


Raçudo, habilidoso e sem pudor para caneladas, Sandro era tudo que a carente torcida esperava de um grande primeiro volante. O empecilho, como é de ciência geral, é creditado às seguidas lesões que impediam Sandro de ter sequência em alto nível.


Todas as partes envolvidas (clube, torcida, time e atleta) sentem (ou devem sentir) muito pelo brasileiro ter sofrido tanto com contusões durante seu tempo no Tottenham. A história tinha todos os ingredientes para ganhar um final feliz, mas graças aos problemas físicos, Sandro se transferiu em 2014 para o QPR na zona oeste da cidade.


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'The Beast' virou ídolo cult da torcida dos Spurs, que ainda sente falta do volante em plena forma


Um ano antes da saída do volante, chegou ao White Hart Lane o mais famoso dos casos de “injustiça” para com o produto tupiniquim: Paulinho. E essa história eu repeti diversas vezes aqui no blog, mas sempre vale grifar.


O ex-corinthiano chegou sendo o dono do time, jogando como queria e onde queria (quase sempre jogando como 10, chegando à meia lua pelas costas do centroavante, como faz no Camp Nou), mas não rendeu. Teve um semestre como pilar da equipe até a paciência de AVB se esgotar. Ainda titular, teve mais um semestre sendo coadjuvante, geralmente fazendo funções diferentes a cada partida para ver se encaixava em alguma, mas também não rendeu. No final, teve outros seis meses como reserva de luxo, mas jogava tão mal que às vezes nem era relacionado. Depois, Tim Sherwood chegou e o testou em diversas funções diferentes pela faixa central. O técnico inglês, inclusive, declarou inúmeras vezes seu apreço pelo ex-corinthiano e claramente não poupou esforços para tentar manter o brasileiro na equipe titular. Pasmem, também não funcionou.


Pochettino, quando tomou as rédeas, pegou o meio-campista logo depois do 7x1 e com um ano inteiro de frustração acumulada (pelo menos por parte da diretoria e da torcida). Paulinho seguramente já não estava mais motivado, demorou quase duas semanas para voltar à forma física ideal e não estava impressionando nos treinos. Dizia ter vontade de jogar, mas provavelmente não estava melhor do que os concorrentes - ou a gana por si só já vale um lugar no time titular?


O desgaste começou a ficar nítido. Poch não botou fé no brasileiro porque possivelmente nunca chegou a ver aquele puta peixe que lhe haviam vendido. Fez promessas esperando que Paulinho melhorasse - e de fato ele melhorou, mas não foi além da parte física - e acabou sem sem conseguir honrá-las por ter um compromisso com o alto padrão de qualidade do time. Aí a ascensão de Dembélé, o surgimento de Dier e a postura de Mason pesaram na balança e o jogador virou carta fora do baralho.


O jogador já comentou em outras oportunidades sobre sua difícil adaptação no clube, as perturbadoras desavenças com Poch - que, supostamente por ser um argentino “raiz” que boicota brasileiros, não teria lhe dado confiança ou sequências de jogos - e as constantes decepções no dia a dia. A ideia que prevaleceu após sua saída foi a de que Paulinho não jogou mal, mas o Tottenham foi quem conseguiu transformar aquele talento puro em um peso morto sem valor; Paulinho não foi incompetente, foi o Tottenham que destruiu a carreira de uma das maiores surpresas desta geração.


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Aquele que chegou sendo 'uma mistura de Steven Gerrard e Yaya Touré' foi um dos maiores flops da história recente do clube




Qual é o saldo final dos brasileiros nos Spurs, então?


Gilberto não se qualifica para entrar na equação da mesma forma que não se qualificava para entrar no time. Nem de longe foi queimado.


Gomes, sem querer, foi queimado por Redknapp, mas se queimou sozinho com todos os outros treinadores que lhe comandaram. Fica difícil dizer que o clube o prejudicou considerando toda a paciência investida. Mesmo assim, ainda é lembrado com certo carinho pela torcida que lhe dirige o canto de ‘yiddo’ toda vez que visita o time do Tottenham.


Sandro era um potencial ídolo que foi atrapalhado pelas contusões e só foi vendido quando a balança do custo-benefício realmente lhe pesou contra, mas é impossível sequer cogitar que tenha sido lesado de qualquer forma pelos Spurs.


Paulinho não conseguiu render o que se esperava nem quando era mimado por AVB, nem quando Sherwood o testou em todo lugar possível para encontrar seu bom futebol e nem quando Pochettino lhe deu um último voto de confiança. Vendo seus desempenhos no Barcelona e na Seleção fica fácil dizer que o Tottenham foi o culpado, mas quem viu a história se desenrolar sabe que não foi nada disso.


Das quatro histórias, só em uma aconteceu de um representante do Tottenham realmente ser culpado pelo mau aproveitamento de um brasileiro - e considerando o desenvolvimento tardio de Sandro, dá pra dizer que Harry Redknapp (e não o clube) é quem tem problema com atletas vindos do Brasil.


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Chegou a vez de Lucas Moura tentar a sorte num time onde brasileiros, em geral, não têm bom histórico


Agora nos resta esperar que Lucas atenda às expectativas - afinal, um brasileiro contratado por argentino num time que boicota exatamente o tipo de funcionário que foi recrutado a peso de ouro é um prato cheio, não? - para que não surja a oportunidade dos urubus voltarem a matar sua fome de carne podre onde ela não existe.