Polêmica não é sinônimo de injustiça: o empate entre Liverpool e Tottenham foi justo

O 2-2 entre Tottenham e Liverpool deste domingo foi um dos jogos mais intensos e emocionantes da atual edição da Premier League. O time da casa abriu o placar bem cedo, numa patacoada de Dier muito bem aproveitada por Salah, e os 78 minutos entre o gol inaugural e o foguete espetacular de Wanyama aos 80 minutos de partida foram um grande recheado de tensão, correria, beleza, sinais de demência pra lá e mostras de descontrole pra cá - o espectro completo de um jogo icônico de Premier League. E então, depois do balaço de empate: pênalti para o Tottenham, Kane perde o pênalti, Salah abusa da defesa do Tottenham e faz 2-1, outro pênalti para o Tottenham, Kane marca, empata e ouve-se o apito final. Tudo isso em dez minutos.


Mas além de polêmico e eletrizante, o empate entre os Spurs e o ex-time de Coutinho foi justo. E não exatamente pelas performances dos dois times.


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O árbitro Jonathan Moss foi o centro das atenções na partida em Anfield


Noventa minutos de água mole em pedra dura. É tão estranho quanto surpreendente dizer que Liverpool x Tottenham foi um jogo de ataque contra defesa, ainda mais considerando que o time londrino representou a ameaça ofensiva que se desencontrou na retaguarda e os Reds serviram de máxima referência defensiva com a linha de frente passando em branco durante quase todo o enredo.


A parte polêmica, no entanto, foi sublinhada nestes últimos minutos insanos de partida. Começou com Harry Kane, com um corpo todo à frente da linha da bola, recebendo um lançamento curto dentro da área depois de Dejan Lovren não conseguir interceptá-lo, e sendo derrubado pelas mãos de Karius. O árbitro Jonathan Moss prontamente apontou para a marca de cal, mas foi chamado pelo bandeirinha que lhe orientou dizendo que o pênalti só existiria se Lovren tivesse, de fato, tocado na bola - ação que anularia a clara posição de impedimento de Kane. Moss ouviu e não voltou atrás, confirmou o desvio do zagueiro e assinalou o penal; tudo isso para o artilheiro da competição chutar no meio do gol ocasionando uma defesa fácil (e esperta) do goleiro.


Quatro minutos mais tarde, depois de Salah marcar o que seria o (belo) gol da vitória, o árbitro voltou a apontar para o centro da área depois de um bumba-meu-boi bem esquisito no miolo da área. A câmera foi buscar, outra vez, o bandeirinha, responsável pela sinalização da nova penalidade. Ele - e não Jon Moss - viu Lamela ser chutado por Van Dijk na ponta da pequena área. Falta claríssima. E falta dentro da área, para muitos que parecem não entender, é pênalti. Decisão acertada do auxiliar. E este árbitro auxiliar, para muitos que parecem não entender, é quem auxilia o árbitro. Nada de anormal, além do incomum. Comum, na verdade, só o desfecho. Harry Kane bem disse ao fim do jogo: “Você não pode me dar duas chances”.


A torcida do Liverpool ficou ensandecida. Ainda deve estar. E não os culpo, inclusive, pois como supracitado, o que vimos foi um desenrolar de fatos bastante incomum; dois pênaltis marcados para o time visitante que estava em desvantagem é um balde de água congelante para qualquer aficionado. Mas quando os nervos se acalmarem, faz bem lembrar que polêmica não é sinônimo de injustiça.


Estamos acostumados a ver árbitros e oficiais passando pano ou fazendo vista grossa para infrações nítidas por puro receio de instaurar e encarar uma situação atípica. Temos medo do anormal, do infrequente, do diferente atrapalhando a nossa zona de conforto. Mas o estapafúrdio também faz parte do esporte (e às vezes não é a seu favor, acontece). E, quando necessário, aparece. E faz bem em aparecer, porque, afinal de contas, neste contexto, é justo. Simples assim.


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Mesmo numa noite ruim, Kane empatou a partida, tomou a liderança da artilharia do campeonato e marcou seu 100º gol na Premier League


Por fim, Karius claramente derrubou Kane que estaria impedido, sim, se Lovren não tivesse desviado a bola antes. Falta. E Van Dijk acertou um coice inocentemente irresponsável em Lamela. Falta. Cabe ao árbitro da partida assinalar ou não as infrações - e as duas foram corretamente marcadas. E não é (nunca!) porque as duas infrações aconteceram num momento crítico da partida, ou num espaço de tempo curto, ou (muito menos) contra o time mandante num estádio cheio de glitter nostálgico que alguma delas deveria ser relevada ou ignorada.


O Anfield não é Suprema Corte e o tal do Kop não está acima de nenhuma lei. Pegue seu banquinho e contente-se com o ponto dividido - afinal, considerando o desenho da partida, podia ter sido pior.