O Tottenham foi refém de sua imaturidade em uma eliminação dolorida como nunca

Em sessenta minutos, o Tottenham deixou a Velha Senhora caquética. Em determinado momento, chegou a parecer tão natural quanto dominar o Stoke. Inflamado por sua própria diabrura, o time brincou de perder gol atrás de gol, dançou na cara do diabo, crente de que sua superioridade técnica respaldaria o gol solitário que persistia no placar. Aí, pecou, ao seguir o roteiro justamente como se enfrentasse o Stoke. Pena que não era.


Em seis minutos, a Juventus tomou a classificação para si com a frieza e segurança de um pirofagista. Lichtsteiner (que quando entrou em campo eu perguntei “ainda não aposentou, esse bagre?”) foi o catalisador da vitória, mas Allegri é quem merece os louros por ter encontrado o antídoto para uma partida quase perdida - fez valer a tradição do clube e a sabedoria adquirida pela experiência para lidar com uma adversidade daquele tamanho, engoliu Pochettino e destruiu por completo a mais otimista esperança que eu fui capaz de criar.


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Confesso que pode ter sido culpa minha. No intervalo, cedi à euforia, abri uma cerveja e pensei quais seriam os outros, entre os melhores times do mundo na atualidade, que poderiam ser dominados pelo Tottenham com toda aquela facilidade. "Seria complicado pegar o Barcelona numa final". Me lembro claramente de ter rido olhando pro teto da cozinha como se eu tivesse acabado de ganhar na loteria; meu corpo era água, carbono e orgulho. Quer dizer, aquela era a Juventus, atual pentacampeã italiana e duas vezes finalista (nos últimos três anos) da Champions League, precisando do resultado, mas sendo completamente aniquilada pelo Tottenham; o meu Tottenham, aquele Tottenham. Mas esqueci, por alguns instantes, como era de fato o clube que eu torço. E a realidade, quando bate, bate forte.


O erro da Juve no primeiro tempo foi o achar que o Tottenham se resumia a Harry Kane. Chiellini grudou no camisa 10 como um carrapato, Benatia e Barzagli se revezavam entre cobrir a sobra do atacante e dar atenção às investidas de Son e Alli pelos lados e Pjanic se poupava de organizar seu posicionamento para dar combate ao artilheiro ainda na intermediária. E até que funcionou, de certa forma. Kane não balançou as redes, afinal, mas ditou o caminho de cada ataque e serviu com maestria a bola que resultou no gol inaugural.


Da mesma forma, o trunfo bianconeri na segunda etapa foi ter a sensatez necessária para mudar de ideia a tempo de evitar sua eliminação precoce. Chiellini se manteve atado ao centroavante como velcro, mas Allegri foi sagaz para notar que a máquina não parava ao anular uma só engrenagem. Se rendeu à linha de quatro, acomodou Lichtsteiner na direita, Asamoah na esquerda, equilibrou a briga nas laterais e se aproveitou da leviandade dos Spurs para mudar o jogo instantaneamente. Marcou dois gols em três minutos e aproveitou os momentos seguintes para fazer o que a escola italiana faz de melhor: segurar resultados.



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Há quem possa dizer que a Juventus teve sorte, gozando de duas oportunidades fortuitas e guardando a vitória sob sete (ou onze?) chaves. Que Dybala não fez absolutamente nada além do gol decisivo. Que Higuaín foi inútil a todo tempo, exceto nos segundos mais fundamentais da partida. Que pela bola o time visitante não merecia. Que o árbitro interferiu no resultado. Que seja. Não importa e não vale. A grande verdade é que o Tottenham, outra vez, não foi maduro o suficiente para agarrar seus méritos com firmeza, não soube se portar como uma equipe que sabe o que tem em mãos e sabe o que tem a perder.


Pochettino demorou (como sempre) para intervir. Sánchez perdeu as rédeas. Davies perdeu a segurança. Até Dembélé pareceu menos vigoroso nos minutos que sucederam o gol da virada. E este - que Bill Nicholson me ouça - ainda é um time que infelizmente não sabe ganhar jogando feio. Simplesmente não é apto para fazê-lo. Não é um recurso viável. Não é natural. Nunca foi. E não nos faltam provas. Colocar uma pilha espanhola de bosta dentro da área para abusar de chuveirinhos - por mais alta e robusta que ela seja - é, na prática, atestar o próprio fracasso. Por isso que, lá pelos quarenta minutos de partida, não havia mais o que fazer se não esperar o apito final. 


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De qualquer forma, a desolação é o sentimento que prevalece. O que por um lado é surpreendente, de certa forma (a gente *realmente* poderia ter batido a Juventus, não?), mas não deixa de ser o que o termo representa de forma mais crua: um estado puramente preenchido por devastação, angústia e pesar.


É uma grande pena que o futebol vistoso, tenaz e imperativo dos Spurs não tenha sido forte o bastante para estender sua narrativa nessa Champions League. Até fica um resquício de orgulho pela beleza do espetáculo oferecido pela nossa bola, e eu até queria poder dizer que quem perde é o torneio, mas não há espaço para aquela saborosa arrogância na noite de hoje. Quem perdeu mesmo fomos nós. E o baque machucou como nunca.