Danny Rose perdeu a briga que comprou com o Tottenham

O melhor lateral esquerdo das duas últimas temporadas da Premier League declarou sincera insatisfação com sua situação no Tottenham em agosto do ano passado (e se você perdeu esse capítulo da história, recomendo que leia as cutucadas do atleta antes de prosseguir aqui). Danny Rose, na época, estava contundido. Voltou a jogar só em novembro, ganhou alguns minutos para recuperar a confiança e um mínimo de ritmo, mas se machucou de novo no início do ano e só agora retornou ao elenco, mas (muito) atrás de Ben Davies na lista de opções para sua posição.


Convenhamos, cutucar o vespeiro enquanto estava de molho não foi a melhor das ideias de Rose - ainda mais sabendo que não estaria apto para jogar por mais dois meses, ao menos. Digo, bradar sobre não estar ganhando o salário que acha que merece é uma coisa quando se está voando, mas fazê-lo de uma posição frágil (como na recuperação de uma lesão) aumenta muito o risco não só de receber reações negativas (como bem se deu), mas também de se queimar a língua.


Em condições de jogo, o lateral inglês ficou de fora dos jogos mais importantes da temporada dos Spurs - e, por que não, de sua carreira - até então. Foi reserva contra Liverpool, Manchester United, Borussia Dortmund (saiu jogando na partida de volta, porém, mas com o time já classificado), Real Madrid e Juventus. No único grande jogo em que foi titular, aliás, o Tottenham foi amassado pelo Manchester City no Etihad. E é claro que Rose não está feliz com isso. Por mais que seja e cultive uma ótima relação com o treinador, o camisa 3 admitiu no mês passado que se irritou por sequer ter sido relacionado para o dérbi contra o Arsenal, e deu as caras nessa semana para falar sobre sua condição. “Eu diria que provavelmente estou bem (fisicamente) o bastante para jogar em qualquer outro time da liga, mas ainda não cheguei no que preciso para jogar aqui”.


Getty Images
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Partimos então do fato de que a culpa da insatisfação inicial de Rose não é (nem de longe) de Pochettino. A estrutura salarial muito meticulosa e pouco flexível do Tottenham é obra de Daniel Levy - política que, vale dizer, não está errada. Danny, inclusive, deve muito a Poch e tem grande apreço pelo argentino, e isso é visível pelas demonstrações de afeto e gratidão que o atleta faz publicamente por seu mentor (e que são plenamente retribuídos, diga-se).


Apesar de tudo, é compreensível o desencanto de um grande jogador que sente estar ganhando “pouco” num time de ponta do melhor e mais inflacionado campeonato do planeta. Afinal, como eu já pontuei, o Tottenham realmente paga bem menos do que a média dos grandes clubes ingleses e de fato deve ser frustrante passar toda a carreira jogando em alto nível sem levantar um troféu importante. Sob essa ótica mais simplista, então, Danny só é ambicioso, e não há nada de mau nisso; afinal, nenhum atleta vai a lugar algum sem ambição, e uma vez que a carreira de um futebolista é relativamente tão curta, é natural ir atrás de tirar o máximo proveito dela. Mas assim como tudo na vida, existe um jeito certo para fazê-lo.


Existe uma zona intermediária - que não é difícil de ser encontrada e explorada, aliás - entre cultivar grandes ambições para si e derramá-las deliberadamente na imprensa, ainda mais quando suas falas contém críticas negativas e advertências passivo-agressivas (que não foram expressadas em particular para os responsáveis anteriormente) diretamente para seu atual empregador, e Rose deu de ombros para ela. Assim, o desabafo sincero se tornou um movimento relações públicas denigrativo para o jogador. Rose cavou as trincheiras, mas o Tottenham ganhou a guerra. E por três grandes motivos.



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Primeiro, os métodos de Pochettino. Se o lateral tivesse voltado imediatamente à equipe depois de recuperado, sem nenhum tipo de “penitência”, naturalmente se abriria um precedente para que outros jogadores supostamente mal pagos (conscientes de que outros clubes pagam o dobro para bagres que apodrecem no banco) usassem a imprensa para expressarem eventuais desagrados e inspirarem sondagens mais persuasivas dos concorrentes. Rose teria, propositalmente ou não, contaminado o ambiente harmônico que parece imperar no clube e carimbaria suas passagens para Manchester como um redentor, não como o pária que hoje é.


Segundo, como já deu pra entender, a imagem do jogador perante a maior parte da torcida foi completamente danificada. Danny, cria da base dos Spurs (veio do Leeds com apenas 16 anos), autor de golaço da vitória em clássico no dia de sua estreia como profissional e profundamente querido por boa parte da comunidade em volta do clube, fundamentalmente traiu todo o movimento por trás do projeto do qual tanto nos orgulhamos, o que foi inacreditavelmente decepcionante. Nada mais natural do que vê-lo perder o prestígio - e mesmo que dedicar um gol para o agora aposentado Ryan Mason, num gesto brilhante de compaixão, tenha lhe dado alguns pontos, seu saldo ainda está bem negativo.


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O terceiro - e principal - motivo, por fim, é seu concorrente de posição. Rose certamente não esperava que Ben Davies desse conta do recado tão bem; nem eu e nem você, certamente. Mas uma vez que o galês foi capaz de fazer com que o técnico, os companheiros e os torcedores sentissem falta do antigo dono da posição, não existe razão racional para dar tamanho respaldo e depositar tanta confiança num um jogador que já se imagina em outro lugar.


Davies faz uma temporada excelente. Apesar de outrora ser considerado uma alternativa mais defensiva para o flanco esquerdo, o lateral ex-Swansea é um dos maiores criadores de chance da equipe (está tendo números melhores do que Rose em sua temporada de maior destaque, aliás), tem uma admirável vocação para preencher o espaço dos beques (função que exerce na seleção galesa) e se mostra confortável tanto no esquema com uma linha de quatro (atuando como lateral) quanto no com linha com três (fazendo um ala mais avançado). Então, se Ben não viesse tendo ótimos desempenhos, cresceria exponencialmente a noção de que o Tottenham precisa do Rose mais do que o Rose precisa do Tottenham. E não é - nem foi - bem assim. 


Como diz aquela frase piegas, o que os olhos não vêem, o coração não sente. E depois de enfiar a si mesmo na sombra, ninguém mais vê Danny Rose nos Spurs. É quase impossível imaginá-lo de branco e azul na próxima temporada. Que tenha mais sabedoria para esperar a investida de Mourinho.