O dia em que Gattuso enfrentou o cara errado

Tottenham e Milan duelavam duramente em San Siro. O ano era 2011, e o jogo valia pelas oitavas de final da Champions League. O vencedor sairia em vantagem na busca pela classificação, que seria decidida em White Hart Lane, duas semanas depois. Sob a batuta de Massimiliano Allegri, os italianos tentavam, com Ibrahimovic, Robinho e Pato, furar o bloqueio de Harry Redknapp e seus comandados.


Aos 10 minutos do segundo tempo, o 0x0 persistia no placar. Mathieu Flamini tentava uma jogada pela esquerda, mas viu o croata Vedran Corluka chegar antes na bola. O francês não pensou duas vezes: tal como um touro ao ver aquele bobão segurando uma bandeira vermelha, saltou com os dois pés em direção à bola - e à canela - de Corluka. Além de uma lesão que obrigou o lateral a sair de maca, a asneira de Flamini provocaria uma briga que, por uma faísca, não foi um armagedom.


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Jordan e Gattuso: perigo iminente


Sem pulso firme, o árbitro da partida optou somente por amarelar o atleta rossoneri. O conjunto da obra deu início a uma confusão à beira do campo. E foi ali que Joe Jordan e Gennaro Gattuso se encontraram pela primeira vez. O auxiliar técnico do Tottenham viu-se na obrigação de, efusivamente, contestar a ausência do cartão vermelho com o bandeirinha. Gattuso, capitão do Milan, não gostou do que viu e deu um “sai pra lá”, ao seu melhor estilo, no assistente técnico: mirou no pescoço do escocês e deu um misto de enforcada e empurrão, proporcionando uma das imagens que melhor descreve seu empenho dentro de campo.


Gattuso mal sabia do que o homem de 59 anos era capaz – e, se soubesse, provavelmente teria evitado o ataque. Nos 20 anos em que jogou profissionalmente, entre 1968 e 1988, o nome de Joe Jordan era acompanhado, quase sempre, do prefixo sujo. Quando não chamado disso, somente uma palavra bastava: Jaws. O apelido surgiu pelo fato de o atacante escocês não contar com os dois dentes da frente. Ele removia a prótese dentária para jogar, o que o deixava com um visual semelhante ao de um tubarão. Atuando por Leeds, Manchester United e até pelo próprio Milan, Jordan sempre deixava a sua marca – fosse com gols ou com brigas.


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Joe Jordan aterrorizava defesas - não necessariamente pelo seu futebol


Atuando pelo Manchester United, contra o Tottenham, em 1978, Jordan deslocou a mandíbula do goleiro dos Spurs, em um tumulto antes de um escanteio. Coincidentemente, seu apelido, além de se referir ao famoso filme de Steven Spielberg, também significa mandíbula, em inglês. Seu espírito brigão esteve presente no confronto com Gattuso, que não se encerrou junto com o jogo.


Após o apito final, o escocês retirou seus óculos e alcançou-os a Harry Redknapp, insinuando que partiria para cima do capitão rossoneri. Não deu outra. Ele peitou Gattuso, que retribuiu com uma cabeçada. Não fossem os braços que retiraram o italiano de perto de Joe Jordan, as consequências poderiam ter sido terríveis. Para o atual treinador do Milan, talvez piores que os quatro jogos de gancho que recebeu da UEFA pelo confronto – e a derrota por 1x0 para os Spurs, seguida por uma eliminação.


O treinador Harry Redknapp deixou bem claro o que faria se a briga entre os dois tivesse sequência. “Só haveria um vencedor nisso: Joe. Eu apostaria dinheiro nele. Dentre todas as pessoas para brigar, eu jamais escolheria Joe”, comentou.


Eu também, Redknapp. Eu também.