O Tottenham decepciona, mas não surpreende

Com Pedro Gabriel Amaral


“O Tottenham precisa assumir riscos para desenvolver-se”. Mauricio Pochettino, em coletiva após o último jogo da temporada passada, refletiu sobre o futuro dos Spurs. “Eu acho que tenho uma ideia bem clara do que devemos fazer, mas não sei se o clube vai concordar comigo”, disse. Das duas, uma: ou o clube, de fato, não concordou com Pochettino; ou a ideia dele era ajudar sua equipe a tornar-se a única sem contratar um mísero atleta desde a criação da janela de verão inglesa, em 2003.


Havia razões para acreditar. As notícias, as necessidades, o contexto. Tudo conspirava para uma janela de transferências ativa dos Spurs. Apesar do gasto massivo com o novo estádio, o valor supostamente disponível para negociações também era grande. A expectativa foi lá pra cima. Nomes de peso sendo cogitados - de forma em que até os mais pessimistas pareciam aceitar que transferências grandes eram apenas uma questão de tempo. Até que a realidade chegou.


Getty Images
Getty Images

A dupla Pochettino e Levy foi pouco ativa nessa janela de transferências



O torcedor do Tottenham nada mais é que o eu lírico de letras da banda britânica Radiohead. O álbum In Rainbows possui narrativas com os maiores exemplos disso. Em Nude, Thom Yorke tenta avisar para "não ter grandes ideias, [pois] elas não vão acontecer". Na canção Weird Fishes/Arpeggi, o personagem se vê habituado em uma zona de conforto. Como a atual – e excelente – equipe dos Spurs. Decide, porém, seguir algo misterioso, cegamente, em busca de aventuras em meio a um desconhecido, com promessa de maravilhas. Os rumores de transferências, claro. E tudo dá errado.


A janela de transferências da equipe foi um enorme In Rainbows. As coincidências são muitas. Thom Yorke pode até não saber, mas ele é um primoroso torcedor do Tottenham. O álbum, por ele escrito, ilustra aquela cena de um anjo e de um diabo nos ombros de um fã dos Spurs. Enquanto o anjinho pensa em Kovacic, Martial e Zaha, o diabinho é sensato: “£150 milhões pra contratar, sério? Cê sabe que é mentira. Não cai nesse papo”. Bem como no trecho de Nude. Mesmo com um verão fraco em contratações atrás do outro, o pensamento angelical prevalece nos torcedores. Até o último segundo.


Getty Images
Getty Images

A equipe titular foi mantida, e isso pode significar muito


A falta de contratações chama a atenção, mas a manutenção de atletas não pode ser ignorada. Alderweireld era o grande sonho do Manchester United. Era. Ele ainda pode ser transferido para fora da Inglaterra, mas a esperança de sua sequência nos Spurs foi reacesa. Dembélé parecia ter encerrado sua passagem pelo Tottenham, só que o acordo com a Inter melou e ele jogará pelo menos por mais uma temporada. Outros atletas não tão importantes quanto os belgas, como Rose e Sissoko, também ficam e ajudam a compor elenco. 


É natural, em meio a esse monte de decepção, concluir que o Tottenham terá uma temporada fraca. Ora, não investiu como os rivais. Nem como todos os outros times da Premier League, que contrataram no mínimo três jogadores cada. Coincidentemente, é a mesma expectativa que existia nos últimos anos. E o time sempre provou o contrário. Ainda que não tenha conquistado títulos, não ficou fora dos quatro primeiros da Premier League nas três temporadas passadas e tornou-se um frequentador regular da Champions League.


Getty Images
Getty Images

O treinador dos Spurs terá trabalho, mas poderá colher ótimos frutos na temporada


E se a comparação com o álbum do Radiohead não terminou no Deadline Day? Apesar de possuir raízes no fracasso e na desilusão, o verso final de In Rainbows, presente na faixa Videotape é, curiosamente, a celebração de uma vitória. "Hoje foi o dia mais perfeito que eu já vi". Se a temporada do Tottenham conseguir transmitir uma sensação como essa, sem dúvidas, todo o sofrimento terá valido a pena.


Talvez, a fórmula para o sucesso esteja na continuidade. E Pochettino sabe disso. “É difícil de entender que o Tottenham não contratou nem vendeu jogadores. Às vezes, no futebol, é necessário se comportar de maneira diferente. Se estamos felizes com nosso grupo e não podemos melhorá-lo, é melhor manter o elenco unido”


Pode ser uma forma de aceitação, mas é um discurso que cabe no momento. Aceitemos-no, pois, usualmente, o treinador argentino sabe o que faz. Se Pochettino está relaxado, eu também estou relaxado. Gastar dinheiro não é sinônimo de sucesso, e, com ou sem contratações, o Tottenham segue a sua caminhada.