Tottenham encontrou uma forma de utilizar a inabilidade de Sissoko ao seu favor

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Como explicar o rendimento impressionante de Sissoko?


No maravilhoso livro Os Números do Jogo, os autores Chris Anderson e David Sally buscam explicar, escorados na matemática, algumas místicas do esporte bretão. Um dos capítulos é dedicado inteiramente para ilustrar as formas de administrar o jogador mais fraco da equipe - e evitar que sua influência seja catastrófica. O dito atleta deve ser isolado, substituído ou simplesmente incorporado ao sistema?


Definitivamente, esse dilema passou pela cabeça de Maurício Pochettino nos últimos dois jogos. Com os desfalques de Dele, Dembélé e Eriksen, a presença de Moussa Sissoko no time titular era quase obrigatória. Diante do Cardiff, há duas semanas, ele foi titular e um dos destaques da equipe. Difícil repetir o mesmo neste sábado, contra o West Ham, né? Que nada. Sissoko não só jogou bem como participou diretamente do gol da vitória. E é possível explicar isso tudo.


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Não, Sissoko não evoluiu da última temporada para essa. Ele segue tendo um primeiro toque pouquíssimo refinado, aliado à ineficiência no passe e na finalização. Aos 29 anos, está muito mais próximo de um declínio técnico do que de uma melhora. O que o ajuda é, na verdade, o contexto em que ele tem sido inserido.


Nada de isolá-lo: Pochettino alterou o esquema para evitar a exposição do francês. “Quando o elo fraco é reforçado não com improviso, mas com uma estratégia bem planejada, os resultados tendem a ser mais impressionantes”. Anderson e Sally exemplificaram a situação com o catenaccio – aquela tática pragmática, surgida na Itália, que envolve uma brutal solidez defensiva. Retranca-se para evitar que jogadores menos dotados tecnicamente influenciem – de forma negativa – no resultado. Benítez, Mourinho e Conte, numa situação parecida, fariam isso. Pochettino não.


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O ressurgimento de Sissoko caminha ao lado do bom rendimento dos Spurs na Premier League

O treinador argentino tem noção das fraquezas do francês – bem como qualquer pessoa que sabe o mínimo de futebol. No entanto, para não abdicar do estilo de jogo regularmente proposto pelos Spurs, Poch viu a solução na troca de esquema. No usual 4-2-3-1, Sissoko teria exigências que, tanto centralizado como aberto, sobrecarregariam-no. Ele não teria a tranquilidade que um segundo volante precisa para sair jogando, tampouco a habilidade requerida para um extremo.


A solução encontrada foi dispor a equipe em um 4-3-3. Assim, o físico de Moussa poderia contribuir na briga por primeiras e segundas bolas, bem como as suas tradicionais arrancadas seriam potencializadas. Um mau domínio do jogador, infeliz e praticamente inevitável, teria consequências menos piores, já que o setor estaria mais povoado.


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A jogadaça do francês no gol contra o West Ham também impressionou o Alderweireld


Contra o Cardiff, uma equipe que prioriza o jogo físico, o francês deu o vigor necessário aos Spurs para vencer a queda de braço. Frente ao West Ham, Sissoko participou mais da construção de jogadas, sempre tendo companheiros para assistirem-no (principalmente os outros dois homens do meio, Dier e Winks). Foi o jogador do Tottenham com a maior porcentagem de passes certos - não precisou arriscar toques mais difíceis. Em uma bela jogada do meia pela linha de fundo, com direito a corte na marcação e cruzamento de canhota, encontrou Lamela livre na área e puniu os rivais londrinos.



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Sissoko está longe de ser uma solução para os Spurs. O atleta, contratado por £30 milhões em 2016, jamais foi uma opção confiável para o 11 inicial da equipe. Num momento cheio de desfalques, porém, tem ajudado o Tottenham no seu melhor início na história da Premier League. Sem peças fundamentais no meio de campo, é o francês que aproveita a chance.


A equipe tem encontrado formas de adaptar-se em meio à tempestade; e isso pode dizer muito sobre o que o restante da temporada nos reserva.