No Camp Nou, Tottenham prova que sabe ser grande

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Lucas marcou e permitiu a classificação do Tottenham na Champions League


Esperei um dia passar para escrever esse texto. A euforia de ontem não permitiria que ele contivesse o mínimo de sentido e racionalidade. Não por pouco: foi um dos momentos mais marcantes da história recente do time.


Pule este parágrafo se você acompanha o Tottenham há anos. Sei que está esgotado de ler o termo spursy nos mais diversos (e melancólicos) contextos. Só que é quase obrigatório citá-lo novamente. O adjetivo tem um significado tão real quanto doloroso: caracteriza as desgraças que só os Spurs são capazes de protagonizar. Ontem, contudo, o time rasgou a página do dicionário que conta com o verbete e pisoteou-a sem piedade.


Perder para o Barcelona no Camp Nou e ser eliminado da Champions League não seria uma desgraça. Sofrer nas mãos de Messi e cia jamais soaria como um vexame - seria a lógica. E é aí que eu entro no meu ponto. Ora, nesses momentos, a experiência conta tanto quanto a qualidade, e o Barça tem ambos de sobra. O Tottenham, portanto, não chegou perto de protagonizar um momento spursy porque a situação não dava chances a isso. Nada satisfeito, foi além: conquistou o empate e se classificou para as oitavas de final da Champions League.


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Após o empate contra o PSV, na Holanda, afirmei que a classificação dos Spurs era praticamente impossível. Não à toa, já que o acaso sempre pendia contra os ingleses. A equipe perdeu pontos nos três primeiros jogos por gols sofridos no finzinho - situações legitimamente spursy, diga-se. Bem, o jogo virou, e agora quem decide no crunch time é o Tottenham. Os seis pontos conquistados diante do PSV e da Internazionale foram assim. E foi isso que fez o torcedor seguir acreditando até os últimos momentos do duelo derradeiro frente ao Barça.


Antes, é necessário pontuar que o PSV deu uma baita mão. De onde veio a motivação para isso? Óbvio: a equipe londrina enfraquece rotineiramente seu rival, o Ajax, contratando jogadores a rodo de lá. O gol de Chucky Lozano, que abriu o placar diante da Inter, serviu como um afago ao, naquele momento derrotado, Tottenham. Depois, no último lance da partida, Viergever foi quem deu um carrinho preciso em Icardi, sacramentando o empate e a classificação dos Spurs. Como um ato de bondade e agradecimento, Levy e Poch deveriam contratar Chucky. Eu não reclamaria.


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O encontro de Moussa e Messi não elucidou qual dos dois é o melhor jogador


O jogo apresentou novidades. Enquanto o Barça foi com o time misto, Walker-Peters, na direita, fez sua estreia como titular na Champions League. Bastaram oito minutos para sua inexperiência ser posta à prova, e Dembélé não perdoou. Atrás no placar, o Tottenham teve dificuldades para se estabelecer no campo do Barcelona e pouco criou na primeira etapa. Diferente do segundo tempo, quando transformou Cillessen em herói. E nada de Dele Alli ou Eriksen: alguns dos milagres do holandês vieram em chances criadas por Rose, que ativou sua versão vintage. A dupla de zaga também teve atuação destacável, bem como Winks e Son.


Ter mais a bola não conta como gol. Nem se seu time for o único desde 2006, na Champions League, a ter mais posse que o Barcelona na casa dele. Aí Lamela e Lucas entraram e energizaram a equipe. Com os dois em campo, o gol era questão de minutos. Saiu a cinco minutos do fim, em jogada iniciada pelo argentino e terminada pelo brasileiro. Um fim apoteótico para uma jornada, por vezes, desagradável.


A comemoração não foi exagerada, nem após o apito final. Isso porque o duelo entre PSV e Inter ainda não havia terminado. Quando a torcida dos Spurs presente no Camp Nou começou a saltar efusivamente, quem estava no campo já sabia: o Tottenham estava nas oitavas da Champions.


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A paixão de Alderweireld após saber da classificação é marcante. Agora renova aí, vai


O roteiro diante do Barcelona não foi inédito. É no mínimo a segunda vez na temporada em que o Tottenham precisa do resultado e obriga o Pochettino a cometer loucuradas. Como colocar o Llorente em campo e tirar todos os volantes. Na verdade, não exatamente tirá-los: Sissoko foi deslocado para a lateral direita, por exemplo. Agora que já passou, essas escolhas não parecem ser tão insanas. Mas, eu juro: foram completamente insanas. E isso não é ruim - ontem, até provou ser bom.


Ninguém são acredita que é decente reposicionar o Sissoko para a linha de defesa quando ninguém menos que Messi entra em campo pelo adversário. Nem que a solução para furar a defesa do Barça é colocar um centroavante imóvel e - quase sempre - inútil. A sanidade, contudo, tem seus problemas. O lateral direito improvisado roubou bolas importantes (inclusive uma de Messi) e criou boas chances quando subiu ao ataque. E o atacante espanhol? Provocou o recuo de Kane, que não usa a camisa 10 em vão: trabalhando como o famoso mediapunta, deu seus – cada vez mais comuns – passes açucarados e protagonizou a assistência para o gol salvador de Lucas Moura.



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Pochettino resolveu abrir mão de seu pragmatismo com trocas justamente no jogo mais importante do ano. Afinal, quem não arrisca não petisca – e o treinador parece ter incorporado o dito no Camp Nou.


São momentos como esse que provam a ambição da equipe londrina. Quando a melancolia dá lugar à euforia, o Tottenham prova que pode, sim, ser grande. Conquistar uma classificação épica em um palco memorável impõe respeito. E ser respeitado é coisa de gente grande.