Com deboche, Spurs dão lição no Arsenal


O silêncio é uma dádiva. A arma forte dos fracos, alguns dizem. O tal do amigo que nunca trai.


No clássico passado, o rival soube desencorajar o Tottenham e conquistou a vitória. Aí seus jogadores deram uma volta olímpica, tiraram uma foto coletiva no vestiário, provocaram nas redes sociais e mais algumas coisas. A atitude foi muito inteligente, até porque não haveria outro jogo alguns dias depois. Mesmo se tivesse: os jogadores dos Spurs jamais ficariam com sangue nos olhos por conta disso. Imagina. O silêncio, na verdade, é para os fracassados.


Duas semanas depois, o produto do barulho está aí. Enquanto o Arsenal se esconde – não necessariamente num fundo falso de guarda-roupas de uma casa em Abadiânia, mas talvez -, o Tottenham celebra. Mais que isso: induz os rivais ao silêncio. Ensina a eles aquilo que deveriam ter feito antes, diga-se. Só que, agora, já é tarde demais.


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O mais surpreendente de tudo é que não foi um atleta experiente que botou os falsos nortistas no lugar deles. Não precisou ser aquele professor, calejado, que já viu situações parecidas (que deram errado) e que quis dar uma lição. Foi um cara de 22 anos. E a aula envolveu dribles, passes, chutes, garrafadas, sinais e peitadas – nada que a gente não esperasse dele, claro. Dele Alli fez do Emirates sua casa, e riu por último ao classificar os Spurs às semifinais da Copa da Liga.


Sabe aquela máxima que diz que deve se responder um desrespeito com respeito, pra demonstrar superioridade e tudo mais? Esqueceram de avisar isso a Dele. Uma cruel e debochada descortesia guiou cada passo do meia no duelo.


A partida foi uma colossal demonstração de tudo que Dele Alli é capaz de fazer. Inteligente, ele é hábil para encontrar seus companheiros com toques inesperados. O primeiro gol foi prova disso: uma assistência milimétrica, tirada de sua cartola, para Heung-Min Son. Destemido, não pensa duas vezes antes de arriscar jogadas ousadas – ainda que, se falhar, pode irritar boa parte dos torcedores por parecer desleixado. Foi mais ou menos o que ele fez no segundo gol. Para completar um lançamento perfeito do Rafael Moura inglês, um toque seu encobriu o claudicante Cech, que mal viu a bola passar antes de balançar as redes.


Getty Images
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Ame seu clube como Dele e Son fazem e tudo ficará bem


Enganou-se quem imaginou que a sessão de deboches de Dele Alli se encerraria com o gol. Na hora de cobrar um lateral, algum torcedor do Arsenal, logicamente mordido com a atuação do inglês, materializou seu sentimento em uma garrafa e arremessou-a na cabeça de Dele. Cair e rolar no chão? Por favor. Melhor reiterar ao rapaz – e a mais alguns que deram risada da cena – o placar do jogo com as mãos. O 2x0 que Alli ajudou a construir.


Não ficou por isso, óbvio. Não se esqueçam que se trata de um filho da puta – ou melhor, do nosso filho da puta (né, Reinert?). Ao ser lançado em impedimento, Dele não pensou duas vezes. Tocou o foda-se, encobriu – de novo – Cech e marcou mais um gol. Tão inválido quanto oportuno. Tão ácido quanto doce. Xhaka ainda quis cobrar algum respeito com o dedo em riste, mesmo sabendo que de lá não viria nada além do oposto. Mais uma vez, Dele foi ele mesmo, na sua mais pura essência.


Getty Images
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Qual foi o resultado mesmo, Dele?


É uma forma diferente de impor respeito, de garantir a cereja do bolo. Mas funciona. E Danny Rose, capitão dos Spurs no duelo, entende bem isso. “Eles merecem totalmente o que receberam. Nós tivemos a motivação para chegar à semifinal, então estamos nas nuvens. Silenciar eles foi a cereja do bolo, principalmente depois de lembrar que celebraram a vitória no início de dezembro como se tivessem vencido a liga”, comentou após o fim do jogo.



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É por isso que a comemoração precisa ser medida e vir nos momentos oportunos. Caso contrário, sua equipe pode perder a invencibilidade de não sei quantos jogos, se distanciar do rival no Campeonato Inglês e ainda cair fora de um torneio, em casa, para esse mesmo inimigo.


Pensando bem, a esgoelada depois daquela vitória não foi tão ruim assim, né?