Silencioso e elegante, Dembélé se despede do Tottenham

Por Pedro Reinert


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Dembélé: rodeado e procurado, mas pouco achado


Antever a próxima passada do adversário é um atributo concedido a uns poucos sortudos que terão aquele algo a mais sobre seus concorrentes de posição ao longo da carreira. Fica mais fácil desarmar, passar, interceptar, driblar, conter ou fugir. Carrega-se uma vantagem natural, intrínseca ao atleta independente da equipe, do esquema ou do contexto, onde tudo se vê e tudo se lê com clareza irretocável. É desse pretexto que nasce um craque para a eternidade.


Dembélé não é esse jogador – nunca foi, e não há mais tempo de ser –, mas é o antídoto. É a substância que faz desse craque, por alguns instantes, um mero mortal. É a força que torna até quem pode ver o futuro incapaz de conter suas ações. É o autor da previsibilidade inviolável.


Seus movimentos são inacreditavelmente simples de se rastrear. Antecipar o caminho da bola a partir de seus giros e arrancadas é um exercício involuntário, espontâneo, e quase sempre certeiro – tanto para nós, espectadores, quanto para eles, adversários. Porém, não há fórmula ou força que permita ao inimigo impedi-lo de executar seus pequenos atos por completo.


Talvez ele tanto se sobressaia em presença e domínio que os sensos alheios sugiram antecipar uma jogada mais vaidosa, triunfante e corajosa. Marcam-no achando que marcam um craque. Esperam o inesperável. Mas enquanto os olhos em volta buscam esse desfecho raro, o belga sai carregando a redonda sozinho pela porta da frente, pela solução mais simplista, como Django caminhou dando as costas para o casarão incendiado e os corpos chamuscados.


Naquele (quase sempre) breve intervalo de tempo, nenhum homem na Terra é mais corpulento, mais inteligente ou mais sagaz. O movimento é sublime e impenetrável. O raciocínio é soberano e inimitável. Ritmo puramente líquido, lúbrico, que unge, que encharca. E o passo violentamente denso, pesado, que carrega, que entorpece. Mousa flui como azeite, ouro líquido, com o qual nem a mais cristalina água se mistura ou se transpõe.


Escondido à plena vista, seu repertório nunca contou com dribles plásticos, chutes exagerados ou passes esnobes. Dentro e fora da cancha, seu trunfo consiste na franqueza e objetividade de um facilitador que se desdobra pelo bem comum. Talvez por isso, mesmo que não houvessem gols e placares, ainda pagaríamos para vê-lo articular seus contragolpes por entre os adversários alagados.


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Em seis anos e meio de Tottenham, o jogador provou-se inigualável


Muito se exige do antídoto, porém, quando há de se enfrentar alguns craques toda semana. Sua vantagem natural – diferente daquela do craque para a eternidade – é finita, e se desgasta mais à medida que passam os anos. E só o tempo, que cruelmente é uma das poucas forças incessantes do mundo, é capaz de apodrecê-lo a ponto de extirpar seu efeito.


Agora, com sua despedida repentina, surge uma incômoda angústia ao assistir o meio-campista saindo de cena sem ter direito a uma última dança, a uma homenagem que traduza sua real dimensão, a um espaço nos holofotes que banham o inesquecível. De alguma forma, porém, talvez seja este por este fim que sua figura seja melhor representada: uma elegante falta de alarde. As coisas realmente belas não clamam por atenção.


O jogador preferido dos seus jogadores preferidos diz adeus ao clube que o tornou a mais vistosa engrenagem e o mais incontrolável enganche. Chegou a hora de se preparar para a vida sem Mousa Dembélé.