Para o alto e avante: Tottenham joga o fino e massacra o Dortmund

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Jogando na ala-esquerda, Vertonghen teve a sua mais grandiosa atuação com a camisa dos Spurs


Você deve conhecer algumas das várias histórias de superação no Tottenham atual. Ao longo da temporada, personagens inesperados deram as caras em situações críticas e ajudaram a equipe de jeitos diferentes. Teve teatro silenciado, exército evitado e um monstro, enfim, respeitado. Para triunfar nas oitavas da Champions sem Kane, Dele ou quaisquer laterais esquerdos, mais um conto desses precisava vir à tona.


ESPN.com.br | Tottenham atropela o Dortmund e põe um pé nas quartas da Champions


Quando a escalação saiu, na cabeça do sofrido e calejado torcedor, motivos para não crer em mais uma bonita narrativa surgiram. Um caminhão de zagueiros num jogo em casa? Na porra do duelo mais importante da temporada? Só que o fã, o mesmo que entoa aquele canto chamando o técnico de mágico todo santo jogo, parece não gravar a ideia. Aprende, cara: ele é mágico pra burro. E fez tudo isso só pra te provar que a paródia da música da banda Pilot (ou da Selena Gomez, vai) tem muita propriedade.


Tudo bem, o primeiro tempo realmente não esteve em sintonia com essa mística. Foyth e Sánchez, nas vezes em que não se complicavam na saída de bola, erravam botes adoidadamente. O meio não abastecia o ataque - e quando o fazia, via os homens da frente empilharem desperdícios de posse. Nada que surpreendesse muito o pessimista – e coitado – torcedor. 


Só que todas as grandes histórias são assim. Elas não vão mostrar grandes coisas, nem transmitir momentos icônicos, até a hora certa. Aí – quase - tudo parece perdido. O zagueiro dos caras, que tem praticamente dois metros de altura, sobe mais alto que todos num escanteio, e cabeceia baixo, no canto.


O instante da cabeçada foi igualzinho àquele de quatro dias atrás, quando Vardy entrou em campo somente para cobrar o pênalti que empataria o jogo. Nos dois momentos, o roteiro melancólico e trágico de sempre parecia se repetir. E ele provavelmente seria o mesmo se não fosse Hugo Lloris. Por duas vezes em menos de uma semana, o francês salvou o Tottenham. Contra o Borussia, uma – humilde – homenagem a Gordon Banks. Uma defesa tão potente, nos instantes finais do primeiro tempo, que energizou o vestiário e toda a segunda etapa.


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Son recebeu um presente de Jan e agradeceu da melhor forma: imitando-o, claro


Na volta do intervalo, a mudança de postura – além da mão mágica de Poch - não demorou muito para ficar evidente. É verdade que a pressão pós-perda de Vertonghen, no primeiro minuto, parecia ter dado errado: Hakimi acertara a bola no meio de suas pernas e seguia para o ataque. Só que Eriksen estava na cobertura, aí recuperou e devolveu a bola para o belga. Pouco se espera de um zagueiro na linha de fundo, mesmo que com espaço para cruzar. Acontece que Jan não é Super Jan por acaso.


Uma parábola perfeita, por cima de Zagadou, no pé de Son. Aí era óbvio (obrigado por protegerem-no, inclusive): no jogo de número onze do beekeeper contra os alemães, o nono gol. Um tapa na rota oposta à do goleiro, no ângulo. A melhor forma possível de manter uma freguesia - e de iniciar o segundo quarto da decisão.


Para impedir que o adversário crescesse e buscasse uma reação, Foyth e Sánchez subiram um degrau e formaram um verdadeiro paredão ao lado de Alderweireld. No meio, Poch girou o triângulo do primeiro tempo, que tinha dois volantes e Eriksen como meia. Winks foi para o centro, e, à sua frente, ficaram Sissoko de um lado e o dinamarquês do outro. Um encaixe perfeito, que inutilizou o mesmo setor do Dortmund. Son e Lucas seguiram espetados, transformando meros contra-golpes em pesadelos. Assim, os Spurs enfraqueciam os alemães e encaminhavam-se para o golpe final - dividido em dois atos.


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Llorente foi letal e marcou o terceiro da equipe


O primeiro deles expôs, mais uma vez, a força e a genialidade de Vertonghen. O zagueiro, improvisado na ala, leu perfeitamente o espaço atrás da linha de defesa e, erguendo a mão, sinalizou para Aurier o que queria. A missão dada foi cumprida. Um levantamento brilhante, no ponto futuro, que viria a ser ocupado pela canhota de Vertonghen. O pé que cruzara para Son, agora, balançava as redes por conta própria. Se ainda havia alguma dúvida, ela teve sua bunda chutada: Jan não é um pássaro, nem um avião. É ídolo e, claro, um superjogador.


Ainda havia o segundo ato. Foi nele que Poch deixou claro que interferiu diretamente no resultado. Não bastava a atuação memorável nos 45 minutos finais, talvez a melhor e mais impressionante sob seu comando. O treinador ainda colocou em campo Llorente, que sacramentou a vitória ao desviar um cruzamento de Eriksen para o fundo do gol. Em um mês, o espanhol foi da lista de transferências para a lista de marcadores nas oitavas da Champions League.



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No fim, o Tottenham não escreveu uma única história. O milagroso Lloris, o mágico Pochettino, o ala Vertonghen, o artilheiro Llorente. Foram várias delas, que, entrelaçadas, formaram uma espécie de Megazord. E não parece ser fácil de lidar com esse monstro.