Toco y me voy: o futebol moderno tem as mãos de um visionário dos Spurs

Há um grupo seleto de ídolos que são identificados de corpo e alma com o Tottenham: Bill Nicholson, Danny Blanchflower, Jimmy Greaves e Ossie Ardiles são alguns dos eternamente lembrados. Quando se conta a história do time inglês, é impossível deixar de mencioná-los. Arthur Rowe, porém, é um nome raramente lembrado  -  o que é uma pena, já que sua desconhecida história com os Spurs confunde-se com a evolução do esporte de maneiras impressionantes.


Futebol Total, tiki-taka, toco y me voy. Essas expressões, mais amadas que odiadas pelos entusiastas do esporte, popularizaram-se e viraram referências para um futebol bonito, eficiente e bem jogado. Poucos sabem que, não fosse a mão de um visionário inglês, provavelmente quase todas as equipes de alto nível  - repito: alto nível  -  que marcaram diferentes épocas, talvez o fizessem abusando do kick and rush, com chutões e tudo mais.


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O ainda jogador Rowe, na direita, em frente ao capitão do Arsenal, Charlie Jones, em 1937


Arthur Rowe, nascido em 1906 na cidade de Londres, mais precisamente (e obviamente) no bairro de Tottenham, foi convidado para treinar os Spurs em 1949. Não por acaso: o homem havia disputado 182 partidas pela Liga Inglesa com a camisa lilywhite, e foi o escolhido para comandar a equipe na busca pelo acesso à principal divisão do país, depois de pouco mais de uma década disputando a segunda divisão . Para esse desafio com os limitados recursos aos quais tinha acesso, o treinador revolucionou não só o seu esquadrão, como também a história do futebol.


Em seu livro ‘Football, My Life’, Ron Burgess, capitão do clube na época, descreveu os primeiros dias com o novo comandante. “No primeiro treino, Rowe nos apresentou ao seu novo esquema de jogo. Enquanto ouvíamos as ideias dele, vi todos os jogadores com cara de ‘o quê?’”. Mesmo com as incertezas, Burgess sabia que tinha algo revolucionário ali. “Eu percebi que nossas novas táticas podem dominar o país”, relatou. E ele não poderia estar mais certo.


Com um toque de bola quase inédito, o Tottenham foi o campeão da segunda divisão sem sustos. O estilo de jogo criado por Arthur Rowe, conhecido à época como push and run, encantou o futebol inglês e o time passou 22 jogos invicto na Second Division. Não demorou para que imprensa e rivais tentassem o desvalorizar. “Na segundona é fácil, quero ver na elite!”, diziam.


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O ponta-esquerda Tommy Harner recebe orientações do já vitorioso professor Rowe, em 1953


Pressionado pela imprensa, que o questionava sobre jogar de forma tão técnica numa liga tão física, Rowe disse que não mudaria seu jeito de jogar “nem por ninguém, nem por muito dinheiro”. Meses depois, o jornal Telegraph se rendeu: “O estilo do Tottenham funciona em triângulos e quadrados, e quando esse mecanismo funciona com velocidade, como aconteceu no sábado [18 de novembro de 1950, quando o Tottenham visitou o então líder Newcastle e lhes aplicou uma sonora goleada de 7–0], com cada passe contemplando cada centímetro da superfície do gramado, simplesmente não há defesa capaz de se opor”.


Mesmo as equipes que não tentaram jogar como os Spurs foram obrigadas a adaptar ou mudar seu estilo de jogo para estar no páreo. E, veja, na temporada de 1950/51, logo na campanha seguinte ao acesso, a vitória do push and run. Os Spurs foram campeões da Liga Inglesa pela primeira vez na sua história. 


Push and run significa o famoso ‘um-dois’. Toco y me voy. O passar a bola e movimentar-se para recebê-la de volta. Um gesto tão simples que só poderia ser criado (ou finalmente implementado à nível profissional) por um gênio.


 

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Rowe conversa com um grupo de jogadores dos Spurs, no White Hart Lane, em 1950


O conceito, hoje tão comum no futebol, revolucionou gerações e gerações.  Os entendimentos do "terceiro homem", por exemplo, que fizeram o Barcelona de Guardiola ser uma das maiores equipes da história do esporte, dependem muito de tudo isso. Todavia, essa não foi a única contribuição de Arthur Rowe para o esporte. Vic Buckingham, ex-atleta do Tottenham, foi encorajado por Rowe a tornar-se treinador. Tendo o então técnico dos Spurs como seu grande mentor, Buckingham alçou voos altos.


Depois de treinar alguns times ingleses como o West Bromwich e ter notável sucesso (foi campeão da liga com os Baggies em 1953 e ficou a quatro pontos do vice em 1954), Vic recebeu outro incentivo de Arthur para desbravar o continente e passou a compor a comissão técnica do Ajax em 1959. Em Amsterdã, o jovem treinador, totalmente inspirado em seu velho conselheiro, estabeleceu diretrizes e conceitos compartilhados com seu assistente recém-aposentado dos gramados, Rinus Michels, que anos depois ficaram conhecidas como Futebol Total. De quebra, Buckingham ainda descobriu, formou e lançou um jovem mirrado chamado Johan Cruyff.



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Outros profissionais influenciados por Arthur Rowe também obtiveram sucesso em suas carreiras. Um deles, Bill Nicholson, é reconhecido como o maior ídolo da história dos Spurs. Sob sua tutela, a equipe conquistou oito títulos de expressão e, para muitos, jogou um futebol incomparável, um dos melhores de todos os tempos. Alf Ramsey, comandante da Inglaterra no título da Copa de 1966, tinha uma relação bastante próxima com Rowe. Em 1949, Ramsey foi contratado pelo Tottenham a pedido de Arthur, tornando-se a peça mais influente para o funcionamento do push and run. O bom relacionamento entre os dois rendeu frutos à equipe e aos ingleses.


O legado de Arthur Rowe é imensurável, mesmo que encurtado por problemas de saúde, que o fizeram deixar o Tottenham em 1955. Faleceu em 1993, aos 87 anos. Mas através de incontáveis profissionais influenciados direta ou indiretamente por ele, Rowe, através de seu trabalho, ainda segue vivo na alma do futebol.