Contra o City e contra tudo, Tottenham prova que é capaz

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Son marcou o gol que dá a vantagem aos Spurs


Há pouco menos de um mês, avaliei o sorteio das quartas da Champions. Acabei pincelando o texto com melancolia, e afirmei que crer na classificação era um mero sonho. Afinal, o City é a melhor equipe da Europa e o Tottenham é o Tottenham. Pode parecer estranho, mas, mesmo depois da vitória de hoje, eu sigo concordando com isso.


Na primeira noite europeia do novo estádio, o Tottenham foi Tottenham. Ele foi intenso, destemido. Também foi nostálgico: Pochettino libertou o espírito que, por diversas vezes, sequer chegou perto de Wembley. Contra o City, imprimiu uma pressão que causou o improvável. Fez Éderson, impecável com os pés, dar balões tortos, para fora. Fez Sterling, melhor jogador da equipe na temporada, parecer aquele jovem cru que, até pouco, muitos contestavam. Fez até Guardiola arrancar os seus ralos cabelos.


A metáfora é infame, mas veraz. A pressão sofrida pelos azuis de Manchester foi tão atípica quanto os erros provocados por ela. Seja pela forma que os Spurs atuaram, pelas próprias decisões de Pep ou pela vibração ensurdecedora que saía das arquibancadas, o City foi colocado em uma situação extremamente desconfortável – e só isso já é uma grande vitória. O 1 a 0 conquistado pelo Tottenham é ainda maior, e adiciona somente mais uma às tantas dificuldades impostas ao adversário.


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Para o Tottenham, ousar é fazer


Não bastou jogar contra o time mais organizado da Europa. O time de Poch também precisou enfrentar uma arbitragem bizarra, que pareceu não acreditar que o time azul estava querendo bater tanto assim - afinal, não é do feitio da equipe. A ausência de sequer um cartão amarelo para Fernandinho, que cometeu ao menos três faltas passíveis de advertência, é simbólica. Uma delas, a agressão no Kane, foi para vermelho. Aguero deu uma cotovelada nas costas do Vertonghen, que, por sorte, não tirou o belga do jogo. E o Delph? A solada em Kane pode até ter sido sem querer, mas foi desproporcional e merecia uma advertência pesada. Tirou o atacante do próximo duelo e, provavelmente, da temporada. 


A sorte é que o Tottenham tem uma defesa sólida, que está há 353 minutos sem sofrer gols na Champions (e não perde há sete jogos no torneio). Além disso, em momentos decisivos na Europa, a equipe tem dado um passo à frente – bem como os seus craques. Lloris, ainda mais contestado após entregar um gol contra o Liverpool, pegou seu terceiro pênalti em 2019. Son deu conta do recado. Como sempre, aliás. Sempre que Kane está fora, o coreano parece sugar a saudade do camisa 10, que deveria ser unânime na lista de sentimentos do torcedor. Recebeu um lançamento magnífico de Eriksen, e até assustou no domínio. No fim, foi uma jogada milimetricamente calculada, na qual fintou Delph e marcou o gol da vitória.


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Como é bom estar em casa


Se o nível das atuações individuais for mantido na volta, mesmo sem o melhor centroavante do planeta, a classificação ainda é bem alcançável. Trippier pareceu o próprio de uma temporada atrás. Os belgas da defesa foram impecáveis, como tem sido a temporada toda. Rose teve mais uma performance vintage, indo do inferno ao céu ao longo do jogo. Winks e Sissoko, a dupla de volantes mais improvável da história das duplas de volantes mais improváveis, foi dominante. Os jogadores mais à frente seguiram a tônica dos demais, não dando paz à - merecidemente - elogiada saída de bola do City.


Foi um recital, é inegável. Recital de postura e de vontade. O estádio merece isso e a equipe também. A torcida, mais ainda. Se a classificação também é merecida? Aí são outros 500. Mas, se depender do que aconteceu nessa noite, melhor duvidar de qualquer coisa - menos do Tottenham.