Manoel Matos: 'O Vitória precisa de uma gestão profissional'

Representante da 'Liga do Bem', o empresário Manoel Matos é o candidato da chapa 'Vitória Unido, Vitória Forte' para concorrer ao cargo de presidente do Vitória. A 'Liga' é formada por ex-presidentes e pessoas influentes no dia a dia do Rubro Negro.


Conselheiro desde 2006, quando o Vitória estava na Série C, Manoel falou nesta entrevista ao Leão da Barra um pouco da sua trajetória dentro do clube, dos projetos futuros, Arena Barradão e sua relação com os ex-presidentes. Vale lembrar que, no momento da entrevista, Manoel Matos ainda não havia anunciado o nome de Paulo Carneiro como Diretor de Futebol. Confira abaixo:


Trajetória dentro do Vitória


Assessoria/Manoel Matos
Assessoria/Manoel Matos

Manoel Matos no evento de lançamento da chapa


"Sou conselheiro desde 2006, quando o Vitória passava um dos piores momentos da sua história e ali de certa forma estava perto do diretor da base. Nesse período, era um profissional de mercado e que trabalhava na indústria petroquímica. Em 2014, fui convidado por Alexi Portela para ser diretor da base. Fiquei até março de 2015. Nesse período trabalhei com Carlos Amadeu (treinador da Seleção Brasileira sub-17), João Paulo (coordenador das divisões de base do Palmeiras), Carlão e muitos outros bons profissionais. Dessa época temos como resultado hoje o David, Ramon, Luan e. com a saída do presidente, nós assumimos à vice-presidência do clube pelo convite do Dr. Raimundo Viana".


Gestão Raimundo Viana/Manoel Matos


"Durante essa gestão, estabelecemos várias metas e alcançamos todas elas. Principalmente no futebol. Obtivemos o acesso à Série A em 2015, voltamos a hegemonia do Campeonato Baiano e mantivemos o clube na Série A. No futebol atendemos as expectativas e deixamos um legado que foi toda uma infraestrutura que nós construímos: campos de treinamentos, projeto de cidadania com o governo, modernização nas áreas administrativas e financeiras, implementando processos e sistemas em todas áreas. O Vitória tinha isso, mas não de uma forma de processo.


Encerramos a gestão com um fluxo de caixa de R$ 40 Milhões: R$ 25 milhões em caixa e R$ 15 milhões a receber de venda de jogadores. Não efetuamos a venda pois entendemos que em uma troca de gestão prudente a decisão sobre vendas seja feita por que estiver na presidência. Não conheço nenhuma passagem do clube em que uma gestão deixou um legado de infraestrutura, uma gestão de futebol tão confortável e uma situação financeira com dinheiro em caixa".


Centro de Performance e Excelencia vs Atletas


"No futebol criamos o Centro de Performance e Excelência dentro do clube. Que é aquele que alguns clubes chamam de 'centro de inteligência'. Esse grupo de trabalho nos ajudou no futebol e na captação de negócios. Após 10 anos, o clube passou a fazer aquisição de atletas. Foram os casos do Kieza e do Marinho, um dos melhores negócios que já fizemos. Além do resultado no futebol, o resultado financeiro: efetuamos a aquisição de 70% do David, que hoje é um grande valor de mercado, assim como o Willian Farias".


Projeto de futebol a curto prazo


"Eu não tenho a preocupação que os outros têm em preparar o clube para os próximos 30 dias. Eu acho que temos um elenco daqueles atletas com contratos em 2018 e mais jogadores da base, suficiente para iniciar a temporada. Só que não vamos esperar o resultado das eleições. Nós estamos trabalhando hoje, temos uma equipe de trabalho, profissionais competentes. Não consigo acreditar que teremos que contratar 20 jogadores em um mês. Não faremos isso. Isso seria uma irresponsabilidade. O que vamos fazer é olhar nossos atletas que são extremamente valorosos com o treinador Mancini, que é um grande exemplo de uma pessoa capaz de montar um elenco rapidamente, vide a Chapecoense que chegou à Libertadores.

Com a eleição dia 13, no dia seguinte faremos uma reunião com Mancini para que a gente comece a trabalhar e montar essa equipe para que no dia 16/01 [estreia no Campeonato Baiano] tenhamos um time pronto para começar o campeonato. Nós temos experiência com isso. As pessoas que estão conosco têm experiência suficiente de mercado, um networking muito grande e isso facilita na montagem".


Divisão de Base


"Agora a médio prazo, nós temos um projeto para base que começa em trazer um profissional de primeiro mundo. Nós estamos criando uma metodologia de futebol do Vitória e que cabe a todas as categorias. Temos um projeto de médio e longo prazo para criação do sub-23, temos a intenção de trabalhar com a figura do "metodólogo" que é aquele profissional que irá trabalhar junto com as comissões técnicas de cada divisão, seja profissional ou base. A intenção é que o jogador, ao chegar no profissional, já esteja alinhado com a forma de jogar do profissional. Vamos definir um biotipo, característica de cada atleta que for selecionado. Vamos fazer captação de atletas de base em todo país e expandir internacionalmente a marca Esporte Clube Vitória, principalmente na Ásia e América Latina".


Prioridades na gestão


"No primeiro momento nós temos um plano de ação dos primeiros 60 dias que eu chamo de 'choque de gestão'. Todos esses R$ 40 milhões deixados não estão mais no clube. Vamos pegar um clube com orçamento menor, uma estrutura inchada, principalmente nas áreas administrativas e financeiras, com muitos contratos que precisam ser revistos e alguns pagamentos que precisam ser feitos para jogadores.

Ao mesmo tempo, traremos um executivo de futebol e seus auxiliares, os melhores que estiverem à disposição do mercado. O nosso foco principal para 2018/2019 será o departamento de futebol. 


Assessoria/Manoel Matos
Assessoria/Manoel Matos

Paulo Carneiro, Manoel Matos e Adhemar Lemos


Influência dos ex-presidentes Paulo Carneiro, Alexi Portela e Adhemar Lemos

[No momento da entrevista, o nome de Paulo Carneiro não havia sido anunciado como Diretor de Futebol do clube, caso a chapa presidida por Manoel Matos vença a eleição].


"Nos reunimos, eu, Alexi, Paulo, Adhemar, Fábio Mota, Cacau e outras pessoas que participaram de um processo de união do clube. E cada um tinha uma forma de unir o clube e cada um procuraria alguma liderança. Eu busquei o Raimundo Viana para fazer parte do grupo e ele preferiu ir para uma carreira solo. Nós procuramos através de outros interlocutores trazer o [Ricardo] David para ficar mais próximo e ele também já estava em uma campanha bastante avançada e no final decidimos que uma pessoa do grupo sairia candidato da união. E colocamos de lado nossas diferenças.

Se você olhar a geração Adhemar, Paulo e Alexi, quando você olha os números, as conquistas, o Vitória foi espetacular. Todas essas passagens o Vitória foi unido e campeão. Eu lembro que na década de 80, a cada 20 campeonatos o Vitória perdia 16 e ganhava 4. Mas já no final da década de 80 pra frente, com Paulo, ganhamos 12 e o rival 6, com Alexi ganhamos 5 contra 1 do rival. Ou seja, foi aí que foi conquistada a hegemonia não só no futebol baiano como no Nordeste. Essas pessoas possuem um legado bonito. Com essas pessoas chegamos 2 vezes às finais de brasileiro, um processo de internacionalização fantástico, ficamos em quinto lugar em 2013. Mas ainda não decidimos nomes".


Decisão de sair como presidente pela 'Liga do Bem'


"Primeiro eu fazia parte da união. Qualquer candidato poderia ser. Mas a decisão por ser Manoel Matos é que eu tenho uma 'memória viva' dos últimos 3 anos do clube: dois como dirigente e um observando aqui do lado de fora o que estava sendo feito. E aí eu concordei mesmo sabendo que seria um trabalho difícil essa união. Eu aceitei o desafio de vir pra união e a condição deles próprios, de não exigir nenhum cargo numa futura gestão. Essa união foi baseada nisso.

Então, na medida das minhas necessidades, o Adhemar tem um vasto relacionamento político, o Alexi tem um grande trânsito na CBF, Globo, Esporte Interativo, Liga do Nordeste. Paulo acaba de passar por uma experiência fantástica no Atlético Paranaense quando deixou o time na Libertadores. Todos podem contribuir com a minha gestão. Evidentemente que chegará o momento que eu vou começar a escolher as pessoas que irão fazer parte como [cargo] estatutário ou colaboradores nossos e nesse momento claro que vou ouvir a experiência deles. Por ora, é um apoio para que a gente possa voltar e pegar o trem descarrilhado, colocar no lugar e seguir em frente".


Assessoria/Manoel Matos
Assessoria/Manoel Matos

Lucas Brandão e Manoel Matos


Perfil: Escolha de Lucas Brandão como vice-presidente


"Nós estamos falando de um Biênio, uma transição, visto que dois anos passam muito rápido no futebol. Eu vivi isso e portanto eu busquei primeiro um jovem. Lucas tem 32 anos, com 22 de arquibancada no Barradão. Um jovem que há mais de 10 anos participa de discussões sobre o Vitória, tem mais de 10 anos de formação na área contábil e administração, tendo trabalhando com auditoria para grande multinacionais nos EUA e São Paulo. Eu vou ter um jovem que estará o tempo todo comigo me acompanhando em reuniões na CBF, Globo, Esporte interativo. Ele vai viver o outro lado da arquibancada. Além de que eu preciso me dedicar mais ao futebol nesta próxima gestão ao lado do meu diretor de futebol. Então estamos trazendo modernidade pro clube, não só em idade, mas a modernidade na implementação de processos na gestão de futebol. Ele tem esse perfil. Ele tem o perfil do torcedor, da gestão e do aprendizado. Outros jovens também participarão e acredito que daqui alguns anos estaremos preparando novos líderes para o futuro do Vitória".


Influência de políticos na sua gestão


"Política está em torno de nós o tempo todo. O que não pode é as pessoas que te apoiam exigir cargos políticos. É exigir que a gestão tenha cargos técnicos. Para isso tem o mercado. Nós tivemos experiência em 2015/16, quando todos os poucos profissionais que contratamos remunerado de mercado foram através de empresas de Recursos Humanos com o perfil desenhado pela instituição.

Quando essa chapa 'Vitória do Torcedor' assumiu o clube no final de 2016, ela era um chapa com vários partidos políticos. Tinha um pessoal ligado ao PCdoB, PT e outros partidos e até pessoas políticas. E o clube foi dividido em lotes políticos. Virou um monte de cabide de emprego. Politicagem é isso. As pessoas que estão apoiando Manoel são torcedores apaixonados pelo clube como eu também sou, como Paulo, Alexi e Adhemar também são, e qualquer presidente que estiver lá tem que olhar a instituição. Se eu tenho alguma ideologia política, ela não tem que ir pro clube. 


Relação com Dr. Raimundo Viana


"Primeiro vamos deixar claro que não existe nenhum problema entre a gente. Eu acho que estão criando isso porque estamos em um processo eleitoral. E venho tentando deixar claro que agradeço a ele por me dar exposição no mundo do futebol. O Raimundo Viana foi quem me abriu as portas e respeitou o trabalho que fiz. Se nós convivemos 20 meses juntos e tivemos sucesso, isso foi graças a esta relação. O que aconteceu foi que, a partir do momento que não concordava com a gestão de 2017 e que eu vi que o trem descarrilhou, eu o procurei e disse que não poderíamos apoiar isso. Ele poderia até ser o candidato mas o grupo teria que entender que ele fazia parte. Se eu tivesse o apoio de Alexi, Paulo, Adhemar e o próprio Raimundo, ficaria mais fortalecida a minha campanha. Mas ele me disse que não poderia tomar a decisão sem consultar as pessoas que apoiam ele. Então ele foi consultar. Então lhe disse que no dia que o grupo escolher o candidato e se eu for o escolhido, eu só tomaria a decisão depois de falar com ele. E foi o que fiz. Liguei pra ele e disse que o grupo estava definindo pela minha candidatura e que eu gostaria de contar com ele. Tanto que lhe disse que, se eu não tiver sucesso na eleição, eu gostaria que o grupo dele fosse eleito e que a gente pudesse ajudar a unir o clube. 


Maior acerto na gestão Manoel Matos/Raimundo Viana


"Maior legado que deixei no Vitória foi tirar o clube da Série B e deixar na Série A e ser Campeão Baiano. As condições financeiras do clube eram muito ruins, muito mesmo. Em setembro de 2015 não tínhamos dinheiro para pagar a folha. Então foi retornar pra Série A sem muita condição financeira, retomar a hegemonia no Campeonato Baiano e se manter na Série A. Esse foi o maior legado. Não adiantava fazer gestão financeira sem conseguir isso. Além disso, fizemos uma coisa que ninguém nunca fez: deixamos o clube completamente equilibrado financeiramente e com caixa".


Edson Ruiz/Coofiav/Gazeta Press
Edson Ruiz/Coofiav/Gazeta Press

Kieza foi contratado por Manoel Matos


Sobre Kieza ser o maior erro na gestão Manoel Matos/Raimundo Viana


"Claro que não. Aí é o torcedor, é o resultado, é nossa cultura. Para você ter uma ideia, quando fizemos a compra de Kieza, o aeroporto fechou. A torcida invadiu o aeroporto. Teve carreata até o Barradão. Em uma sexta-feira à tarde, colocamos 5.500 torcedores para ver a apresentação de Kieza. A torcida adversária quase morre. Nós saimos de 4, 5 mil sócios para quase 10 mil. Como é que isso pode ser um erro? Todas as contratações que fizemos foi baseada no nosso Centro de Desempenho e Análise. Você faz lá uma análise de um jogador e traz, mas ele pode chegar aqui e não render aquilo que você gostaria.

O William Farias nós trouxemos com base na análise que fizemos e teve excelente performance. Quando contratamos, o torcedor falou: 'Essa diretoria é tão fraca que, em vez de pegar Uiliam Correa, pegou William Farias, pegou o William errado'. Três ou quatro meses depois, o William Farias virou ídolo no Vitória. E no final de 2016, trouxemos Uiliam Correa. Então as pessoas esquecem facilmente o que aconteceu. O sucesso que poderia ser maior com Kieza não ocorreu por problemas de contusão, problemas de adaptação, esquema de jogo, metodologia e outros. E você não pode fazer um investimento de um milhão de dólares em um jogador em contrato de um ano. Isso não existe. O David, que eu comprei, fiz um contrato de cinco anos. Tem que ser no mínimo três anos. O Marinho, o Wiliam Farias, tudo três anos. Mas não dá pra culpar o torcedor, isso é papel do gestor. Quando o gestor não sabe isso, o trem fica descarrilhado novamente".


Arrependimento durante a gestão


"Toda decisão que tomei foi baseada em informações e conhecimento que tinha no momento. Eu considero hoje que sou uma pessoa muito mais preparada que em 2015/2016. Não tenho a menor dúvida que um dos melhores projetos da nossa gestão além do futebol foi o projeto Arena Barradão. Tenho certeza absoluta que nós acertamos em toda a parte de projeto, mas nós tivemos um problema de conflito, de desunião política no clube e não soubemos mostrar pro torcedor e conselheiros que o projeto era mais importante que nossas diferenças.

Hoje, qualquer projeto que vá levar o clube para um patamar maior, vou compartilhar direto com o Conselho Deliberativo, que inclusive foi formado pela gestão que saiu e foi desaprovada. No entanto, eu acho esse conselho, até por ser jovem e democrático, vai nos apoiar muito. Eu sou completamente aberto ao conselho, um órgão à parte e que tem o Paulo Catharino como líder. Se for eleito, quero levar ao conselho todas as ações que busquem um Vitória cada vez maior e mais forte.